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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

Luis Galvão tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava de todos, mas especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a quem se ama, e cuja estima se alcançou, não pode haver maior suplício para o homem de brios.   O esquecimento do papel, que sem dúvida continha revelação ou referência do segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulação para ocultar o verdadeiro motivo de sua volta; esses pequenos embustes sem conseqüências, e que talvez a outros nem mais lhe roçassem na memória, o estavam remordendo interiormente. 

  Chegaram afinal os viajantes ao canto da tigüera. Havia junto a um copado guarantã, que lhe dava sombra, uma ponte de madeira, lançada sobre as altas ribanceiras de um córrego, que regava parte das terras lavradas. 

  Aí estava a última tronqueira da fazenda. 

  Voltou-se Luís Galvão para enviar um adeus à mulher, que lhe acenava com o lenço, e desapareceu. 

 

Os gêmeos 

 

  Deixando a mãe, separaram-se os dois irmãos para se encontrarem no pátio interior, donde também havia passagem para as jeiras da fazenda. 

  Linda fora tomar a capelina de fustão branco, e Afonso o boné e o bastão de passeio. Assim preparados, puseram-se a caminho par a par, garrulando como um casal de coleiros que deixam a asa materna para folgarem pela grama ensaiando os primeiros vôos. 

- Que fingido é você, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei se vinha passear, respondeu-me “se quiser” e estava morrendo! 

- Com pena de uma certa pessoa, que não fazia senão olhar lá para a figueira.  

- Que história! disse Linda corando. 

- Eu respondi “se quiser” mesmo de propósito; para ver sua tenção. Você não disse ontem que sou eu quem vai todos os dias para aquele lado? 

- E é, sim. 

- Deveras! Sustente outra vez, e verá se não volto. 

- Não, meu maninho do coração, não se zangue. Eu prometi a Berta que hoje havia de ir sem falta. Ela está nos esperando. Vamos; sim? 

- Primeiro há de por as mãos e dizer comigo:

- “Meu Afonsinho...” 

- “Do meu coração...” 

- “Eu lhe peço e rogo... que me leve... onde está...” 

- Onde está Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra do irmão. 

- “Onde está” insistiu o rapaz uma e duas vezes. 

  Afinal Linda cedeu: 

- Onde está... 

- “Meu benzinho!” concluiu o rapaz. 

  Banhou-se a menina em ondas de púrpura. 

- Ah! Mano! disse Linda com um melodioso queixume. 

- Assim é que se ensina uma sonsinha! replicou o moço a rir. 

- Você me paga! tornou a irmã com um pequeno assomo de revolta. Tenho um certo segredo a para contar a Berta... 

- Segredo de mulher! galhofou o irmão. 

- Vou dizer-lhe que não se importe com gente ingrata; e como só eu é que me lembro dela, não tome o trabalho de vir cá para ver-me, porque eu não tenho mais com quem passear. 

- Você é capaz? 

- Sou. 

- Uma aposta? 

- Não quero; você logra-me sempre. 

- Também tenho uma coisa para dizer. 

- A quem? 

- Não sabe? Faça-se desentendida. A Miguel. 

- O que é? 

- Que uma certa pessoinha, a qual eu não descobrirei... que essa pessoinha me pediu para... para dar um... a ele já se sabe... um... 

(continua...)

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