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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

A superfície da terra conserva ainda um aspecto combusto e árido; vê-se que por aí passou a lava em tempos remotos. De espaço a espaço o trabalho do homem cobriu a encosta da montanha de plantações; mas entre esses pontos cultivados destaca-se ainda mais a bronca aspereza dos sítios agrestes. 

No domingo em que estamos, Ricardo dirigiu o seu passeio a pé para aquelas bandas. Já tinha algumas vezes feito essa excursão até a “Cascata Grande”, um dos pontos mais freqüentados pelas pessoas que passam o verão na Tijuca; naquele dia porém tencionava ir mais longe, até a habitação de uma pobre gente, conhecida de D. Joaquina, e às vezes por ela socorrida em suas misérias. O saquinho da boa velha, apesar de escasso, tinha sempre uns vinténs para as esmolas do sábado. 

Justamente na véspera, D. Joaquina recebera por intermédio de algum quitandeiro um recado da pobre gente e exprimira a intenção de mandar-lhe qualquer pequeno socorro, como costumava. O advogado lembrou-se disso, quis dar a seu passeio um fim caritativo; tinha na véspera recebido dez mil-réis, como honorário por um requerimento. 

Estava rico; podia pois aliviar dessa vez o saquinho de D. Joaquina daquela despesa. 

Com este pensamento tomou às seis horas da manhã o caminho da Barra. 

Aí, próximo à Restinga, havia então, e talvez ainda exista, uma cabana coberta de palha de sapé, com paredes de emboço. Em muitos lugares porém tinha caído o barro, deixando entre as varas grandes buracos, tapados com ramas secas. 

Esta choça miserável ficava a algumas braças do caminho. Para chegar à porta, Ricardo tomou uma vereda que rodeava uma quebrada de terreno. Estendida em varas via-se a enxugar alguma roupa de chita e algodão, muito bem lavada, mas aberta em crivo de tão gasta e rasgada que já estava. Sobre o capim do terreiro estava emborcada alguma pouca louça branca de beira azul, uma panela, uma frigideira e uma colher de pau. 

Esse terreiro era, não chovendo, a lavanderia, a copa, a cozinha e a sala da pobre gente. A choça tinha apenas um compartimento, onde se acomodavam Simão, a mulher, e três crianças. 

Esse homem sustentava sua família com o produto da pescaria e de uma pequena plantação de bananas; assim iam vivendo pobremente, mas sem grandes privações, quando de repente tudo começou a desandar. O peixe fugia da tarrafa do pobre Simão; as bananeiras começaram a mirrar; e até os ovos da galinha goravam ao menor ronco da trovoada. 

O pescador era homem ativo, incansável no trabalho, porém caráter débil, que desanimava com os reveses. As contínuas decepções o acabrunharam; caiu em uma prostração moral, muito mais perigosa do que a enfermidade do corpo. Convenceu-se de que o seu infortúnio era um castigo do céu por algum pecado que cometera; e resignou-se a sofrer sem lutar. 

- Não se resiste a Deus, mulher! dissera ele. 

A Gertrudes porém atribuía a desgraça ao quebranto que algum invejoso deitara à sua casa. Ela se lembrava que um dia passara por ali e pedira água um inglês muito magro, sem dúvida chupado pelas almas do outro mundo. Desde esse dia tudo andava às avessas, dizia a mulher; porque o sujeito saindo zangado com o pequeno que o chamara de gooden, deitara à casa uma figa. 

Entrando na choupana, viu Ricardo o Simão deitado em uma esteira sobre a cama de varas da altura de um palmo apenas. A magreza extrema, a atonia e lividez do semblante, estavam indicando uma moléstia grave. A mulher, sentada defronte em um toco de pau, cismava na sua vida enquanto descansava um momento da lida de cada dia. Era ela quem valia agora à desgraçada família com seu trabalho e sua diligência. 

- Então que é isto? disse o moço correndo os olhos do marido à mulher.

- O Simão anda bem doente! 

- Que tem? 

- Nada, nada, meu senhor. Isto vai assim mesmo até acabar de uma vez. A mulher levantou os ombros: 

- Ninguém lhe tira aquilo da cabeça. 

- Mas o que sente? perguntou Ricardo ao doente. 

- Eu sei! 

- É assim uma fraqueza, que já nem se pode levantar, respondeu a mulher. Há uma semana que está aí, nessa cama, que nem ata, nem desata. 

- Não tem tomado remédio? 

- Que há de tomar, meu senhor? 

Ricardo achou-se embaraçado na resposta; nada absolutamente entendia de medicina, ciência aliás em que todos arranham seu tanto. Tirando da carteira uma nota de dois mil-réis, pô-la na mão da mulher do pescador.

- É D. Joaquina que lhe manda! 

- Deus lhe há de pagar a ela as esmolas que nos tem feito, disse a Gertrudes. 

(continua...)

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