Por José de Alencar (1875)
Cumprido o preceito da piedade filial, Arnaldo, que nem um instante perdera de espreitar o vizinho adormecido, pensou que era tempo de realizar o seu intento, e portanto começou um passeio aéreo pela rama das árvores, que se entrelaçava, formando com os galhos um como travejado pavimento, a que servia de dossel a verde copa embastida.
O sertanejo andava tão fácil e seguro por aquele girau como pelo pavês de um sobrado. Muitas vezes, quando menino, correra por alí atrás dos macacos e saguís que o não venciam na agilidade, pois agarrava-os à mão nas grimpas da floresta. Era tanto para admirar-se a rapidez como o jeito e sutileza com que resvalava por entre o chamiço, a ponto que se não ouvia o arfar de uma só fôlha.
A um tiro de arcabuz estava o sítio que Arnaldo designara com o nome de grota: era o despenhadeiro de um profundo barranco. Os detritos, acumulados pelos enxurros nas covoadas alí formava o terreno, alimentavam as árvores altaneiras cujas vastas copas ensombravam o tremedal.
Entre essas árvores a mais pujante era um angico secular, que lançava as grossas raízes a meio precipício. O formidável tronco, crescendo a princípio obliquamente, na direção da outra rampa do desfiladeiro, como a atravessá-lo, no centro voltava-se a pino e subia verticalmente a grande elevação, onde repartia-se em vários esgalhos confluentes.
De escancha sôbre um dêsses ramos, com as pernas engalfinhadas nos interstícios e o corpo recostado no rústico espaldar formado pelos outros galhos dormia a sono sôlto um homem ainda moço, de insólita e desconforme robustez.
O toro, tinha-o corpulento, mas de uma mesma grossura desde os ombros até os artelhos, de modo que estando de pé e com as pernas fechadas, parecia um tôco de pau cortado na altura de dez palmos do chão. Essa prancha de carne rematava em uma cabeça pequena e redonda, semelhante à maçaneta de um balaústre, e assentava em dois pés enormes que mais pareciam as cunhas de uma escora.
Do seu aspecto, bem como da fôrça de que era dotado, lhe viera a alcunha de Moirão, nome que nas fazendas tem o pião onde se jungem as reses para a ferra. Muitas vezes, jactando-se de sua pujança, aguentara no laço um boi bravo à disparada, sem abalar-se do lugar onde se fincava, nem sequer titubear.
Arnaldo surdira em um ramo superior, a cavaleiro do sujeito, a quem estava agora observando a seu vagar. Comprazia-se o rapaz em admirar a robustez estampada na musculatura dessa organização atlética, que produzia em sua alma uma emoção artística. Para êle, sertanejo, filho do deserto, tão poderosas manifestações da fôrça tinham majestade e beleza épicas.
Entretanto bastava um gesto seu para aniquilar o colosso. Estendesse êle o braço, travasselhe do pé e emborcasse-o no precipício, que em um fechar d’olhos estaria o Moirão reduzido a migas, nas arestas dos alcantís.
Arnaldo não demorou seu espírito nesta idéia senão o tempo necessário para a repelir.
Ao cabo de alguns instantes, desprendeu-se o rapaz do silêncio em que se envolvera e donde não transpirava nem o sôpro de seu hálito; algumas fôlhas rumorejavam em tôrno, e a casca do pau rangeu ao roçar do corpo que sentava-se.
Como não bastasse êsse tênue arruído para despertar o madraço, o rapaz quebrou uma haste de cipó. Com a fôlha que deixara em uma das pontas começou a fazer cócegas nas largas ventas rombas do Moirão, que dava com as mãos às tontas para enxotar a môsca impertinente.
Afinal abriu o dorminhoco as pálpebras, pestanejou com a claridade do dia, esfregou os olhos e ficou pasmado a encarar com o Arnaldo, que se estava rindo, mui lampeiro, alí por cima dele, comodamente sentado em um ramo da árvore.
— Salve-o Deus, Aleixo Vargas, disse o sertanejo em tom jovial. Que sonata tão regalada, homem! Apostaria que anda tresnoitado, se não sou besse que você em ferrando a dormir é como jibóia quando enguliu veado.
— Hanh!… bocejou o outro estremunhando.
É você, Arnaldo.
— Acorde de uma vez, amigo!
— Onde estou eu?… Ah! já sei; arranchei-me aquí para madornar um pedaço e pegou de mim uma tal bebedeira de sono que estou que não posso comigo.
— Pelo que mostra não teve lá muita saudade do seu catre da fazenda, Aleixo Vargas, que logo na noite da chegada veio pôr-se de poleiro cá pelas matas!
— Não sabe que despedí-me do Campelo?
— Ainda não encontrei quem me desse tal nova; respondeu Arnaldo, iludindo os têrmos da pergunta.
— Então você não tornou à casa depois da chegada?
— Depois da chegada do capitão-mór ainda lá não fui.
— Pois é como lhe digo, Arnaldo; deixei duma vez o homem, por não poder mais aturá-lo.
— Que lhe fez o capitão-mór, Aleixo Vargas, que tanto o amofinou?
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.