Por José de Alencar (1873)
Se fora essa bota o talismã que prendera o Sebastião aos encantos da Miquelina, não reza a crônica; mas que era ela o condão com que a velha amansava o turrão do genro, e lhe abaixava a grimpa no meio de seus frenesis, nisso maldavam os murmuradores, quando ao cair da tarde, na Ribeira do Peixe, tomando a fresca e assistindo à chegada das canoas dos pescadores, tasquinhavam na vida alheia.
Verdade ou não, o caso é que o tabelião já a meio da porta, parou atado, e esteve um instante a considerar no meio de tirar-se da embrechada. A Romana, que esperava pela volta, disfarçou.
— Enfim não havemos de brigar por causa disto, disse afinal o Sebastião virando-se.
— É como queira; eu cá danço segundo me tocam, replicou a velha.
— Vou pensar sobre o caso, e depois falaremos.
— Está bem avisado! Ainda vai pensar? Pois eu cá não sou de sanxa e maranxa; já pensei e repensei. Basta que trouxe o rapaz comigo, para duma feita deixá-lo no cartório. E por sinal que há de estar bem cansado de esperar, o coitado, feito pé de muro, aí defronte da casa.
— Então a senhora já contava com a cousa?... perguntou o Sebastião sentindo revoltar-se a sua dignidade de homem e de tabelião.
— Pois eu podia capacitar-me de que o senhor rejeitasse um tão bom achado?... Olhe, que o rapaz escreve que é mesmo um debuxo.
O tabelião sacudiu os ombros desdenhosamente.
— Mande-mo cá, senhora, que eu lhe tirarei os pontos.
Sumiu-se o Sebastião pelo corredor, em demanda do cartório, onde em pouco foi achá-lo a Sr.ª Romana, que levava o nosso Ivo à sirga, tirado pela aba do gibão.
XII
DO PRIMEIRO TRASLADO QUE O IVO TIROU NO CARTÓRIO
Pouco demorou-se a matrona. Empurrando o rapaz à frente do genro, disse-lhe:
— Aí o tem; há de ser preciso tosá-lo seu tanto, que está muito peludo.
E voltando sobre os pés, foi-se a Sr.ª Romana à sua obrigação.
— Peludo!... resmoneou o tabelião entre dentes; quando eu o acho delambido demais! Todavia hei de pô-lo a jeito.
Esticou-se o Sebastião no tamborete, equilibrando o gancho dos óculos em cima do beque, abriu a boceta com um estalo sonoro, e sorvida em cada venta a pitada mestra com um estrépito solene, dirigiu a palavra ao Ivo que o estava espreitando através do acanhamento de se ver metido naquela arriosca.
— Com que então, moço, você quer ser da obrigação deste cartório?
— Se for do gosto de Vossa Mercê; que eu estou pronto a ser não só da obrigação, mas também da devoção.
— Como se entende isto?...
— Saberá Vossa Mercê que isto subentende-se.
— Fale-me raso e chão, moço; que eu não sou homem de remoques.
— Com perdão de Vossa Mercê eu queria dizer que hei de esforçar, não só pela vontade de ganhar, senão pelo gosto de o servir.
O tabelião fungou o resto da pitada, arregaçando as ventas; o que nele equivalia a interjeição de suspeita e desconfiança.
— As falas não são más, resta ver as obras.
Metendo uma costaneira de papel entre o índice e o máximo da mão esquerda, com a direita escolheu na pilha de bacamartes que tinha ao lado um volume.
— Tire-me o traslado desta escritura, disse o Sebastião Ferreira abrindo o volume no lugar onde estava marcado com uma tira de couro.
— É para copiar palavra por palavra? perguntou o Ivo, que não sabia o que era traslado.
— E sem faltar uma vírgula.
— Em que letra quer Vossa Mercê que eu copie? Em letra redonda, cursiva, grifa, itálica ou bastarda?
— Hem! hem! fez o tabelião; embasbacado com aquela nomenclatura. Nada, moço; aqui não se querem dessas artes e novidades; que são boas para copistas de pergaminho. Escreva-me letra de mão e bem corrida, como está aí nas notas.
Ajoelhou-se o Ivo do outro lado da mesa, e sacando do bolso o seu tinteiro de chifre e a pena de ganso bem aparada, preparou-se a tirar o traslado do bacamarte reclinado diante dêle sobre um enorme cunhete de jacarandá. Tinha o rapaz a maior confiança no seu bonito talhe de letra e esperava sair-se bem das provas; mas surgiu-lhe um embaraço com o qual não contava, e que o fez descoroçoar da empresa.
Era a escrita do Sebastião Ferreira a mais tabeliosa que se pode imaginar; dificilmente conseguiam os velhos escreventes meter-lhe o dente. Uma linha tremida estendendo-se horizontalmente, e com umas pontas que lhe saíam para cima e para baixo, tal era o aspecto desse gregotim indecifrável.
Debruçado sobre o bacamarte, o Ivo concentrava todos os esforços para destrinçar aquele texto emaranhado, e já lhe corria o suor pela testa abaixo, sem que tivesse conseguido soletrar duas palavras.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.