Por José de Alencar (1860)
Helena – Espero Carolina. Preciso estar só com ela.
Vieirinha – Está feito. vou trocar as pernas por aí.
Helena – Não voltas?
Vieirinha – É boa! Deitas-me pela porta fora e achas que devo voltar?
Helena – Estás zangado?... Deixa-te disso. Volta às quatro horas.
Vieirinha – Para fazer o quê?
Helena – Iremos jantar ao Hotel de Botafogo.
Vieirinha – É muito longe.
Helena – Não faltes.
Vieirinha – Se puder.
Helena – Conto contigo.
Vieirinha – Vai só.
Helena – Não tem graça!
Vieirinha – Pois eu não posso ir.
Helena – Por que razão?
Vieirinha – Por quê...
Helena – Estás inventando a mentira?
Vieirinha – Tenho acanhamento em confessar-te.
Helena – Começas tarde com os teus acanhamentos!
Vieirinha (rindo) – Deveras!... Pois não vou ao Hotel de Botafogo porque não quero encontrar-me com certo sujeito.
Helena – Ou sujeita?...
Vieirinha – Já está com ciúmes! É um rapaz que me ganhou outro dia cinqüenta milréis no jogo, e a quem ainda não paguei.
Helena – Não será o primeiro.
Vieirinha – Nem o último. Mas esse tem uma irmã feia e rica que pode ser um excelente casamento. Se não lhe pago, fico desacreditado na família.
Helena – Bem feito! Só assim deixarás o maldito vício do jogo.
Vieirinha – Ah! Deu-te para aí! Queres pregar-me um sermão? Basta os que ouço do velho! (Vai sair)
Helena – Então, até quatro horas?
Vieirinha – Não, decididamente não vou; já te disse o motivo.
Helena – Olha! Se tu me prometesses...
Vieirinha – O quê?
Helena – Não jogar mais.
Vieirinha – Que farias?
Helena – Faria um sacrifício...
Vieirinha – Sacrifício... (faz o gesto vulgar com que se exprime dinheiro)
Helena – Sim!
Vieirinha – Prometo o que tu quiseres! Juro!
Helena (dando-lhe uma nota) – Pois toma; vai pagar a tua dívida e volta.
Vieirinha – Está dito!... Tu és uma flor, Helena.
Helena – Sim! Vêm a tempo os teus cumprimentos; nem fazes caso de mim.
Vieirinha – Não digas isto. Os únicos momentos de felicidade que tenho são os que passo junto de ti. Até a tarde!
CENA V (Helena e Carolina)
Carolina – Cheguei muito cedo!
Helena – Não faz mal.
Sentia uma impaciência!... Apenas Ribeiro saiu, meti-me num carro...Antes que me arrependesse!
Helena – Assim estás resolvida?
Carolina – Inteiramente.
Helena – Já duas vezes disseste o mesmo, e quando chegou o momento...
Carolina – Hesitei antes de dar este passo; não sei que pressentimento me apertava o coração, e me dizia que eu procedia mal. Foi o primeiro homem a quem amei neste mundo; é o pai de minha filhinha. Parecia-me que devia acompanhá-lo sempre!
Helena – Se ele não te abandonasse mais dia, menos dia.
Carolina – Não há de ter este trabalho; hoje resolvi-me; esta existência pesa-me. A que horas vem o Pinheiro?
Helena – Não pode tardar.
Carolina – É muito longe daqui a Laranjeiras?
Helena – Não; é um instante! Em cinco minutos podes lá estar.
Carolina – Já viste a casa?
Helena – Ainda ontem. Está arranjada com um luxo!... O Pinheiro vai te tratar como uma princesa.
Carolina – Contanto que me deixe livre.
Helena – Ele te adora; há de fazer todas as tuas vontades. Queres ver que lindo presente te mandou?
Carolina – Por ti?
Helena – Sim; está aqui. (Tira do bolso caixas de jóias)
Carolina – Um colar...pulseiras...um adereço completo!
Helena – Não é de muito gosto?
Carolina – São brilhantes?
Helena – Verdadeiros... Mas, Carolina, tenho uma notícia a dar-te.
Carolina – Que notícia?
Helena – Teu primo deseja ver-te.
Carolina – Luís!... Esteve aqui!... Que me quer ele? Ainda não está satisfeito com me ter mostrado tanto desprezo?
Helena – Que te importa?
Carolina – Sempre que o vejo fico triste. Sofro por muitos dias.
Helena – Foi a princípio.
Carolina – Ainda hoje não posso esquecer as palavras que ele me disse há dois anos. E são tão amargas as suas palavras!
Helena –
Entretanto ele te ama.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.