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#Crônicas#Literatura Brasileira

Crônica do Viver Baiano Seiscentista

Por Gregório de Matos (1650)

Cota a pedir-me se atreve,

o diabo a mim me leve,

se ela val mais que um tostão:

que outra fêmea de canhão,

por seis tostões, que lhe dei

toda a noite a pespeguei,

e a quem faz tal peditório

Borrório.



Ora está galante o passo;

Menina, não me direis,

se vos deu quinze mil-réis,

quem vos tirou o cabaço?

fazeis de mim tão madraço,

que vos dê tanto dinheiro

por um triste parrameiro,

que está junto ao cagatório?

Borrório.



Quereis argolas tirar

Co'as moedas, que são minhas?

para tirar argolinhas

só lança vos posso dar;

vós pedis por pedinchar

sem vergonha, nem receio,

como se eu tivera cheio

de dinheiro um escritório:

Borrório.



Saís muito à vossa Mãe

nos costumes de pedir,

e eu em não contribuir

me pareço com meu Pai:

essa petição deixai;

quereis sustentar-vos só

vossa Mãe, e vossa Avó,

e todo o mais avolório?

Borrório.



Vindes a mui ruim mato,

Menina, fazer a lenha,

que outra fêmea mais gamenha

mo fazia mais barato:

buscai outro melhor pato;

quereis depenar, a quem

a penas segura tem

a ração do refeitório?

Borrório.



Quereis, que o Prelado astuto

me tome conta da esmola,

e que a bom livrar dê a sola?

que tal faça! fideputo:

eu não sou amba macuto,

nem sou tampouco matreiro,

que vós comais o dinheiro,

e eu fique de gorgotório?

Borrório.



Vós quereis sem mais nem mais,

que no sermão de repente

eu faça chorar a gente,

para que vós vos riais?

tão ruim alma me julgais,

que para as vossas cobiças

tome capelas de missas,

e que chore o Purgatório?

Borrório.



Ora enfim vós a pedir,

e eu Cota a vo-lo negar,

ou vós havei de cansar,

ou eu me hei de sacudir:

com que venho a inferir

destas vossas petições,

que heis de pedir-me os culhões,

a parvoíce, e zimbório

Borrório.



SATIRIZA OUTRO CASO DE UMA NEGRA QUE FOI ACHADA COM OUTRO FRADE, E FOI BEM MOÍDA COM UM BORDÃO POR SEU AMASIO, POR CUJA CAUSA SE SAGROU, E SE FINGIU MANCA DE UM PÉ.



Nunca cuidei do burel,

nem menos do seu cordão,

que fosse tão cascarrão,

tão duro, nem tão cruel:



mas vós como sois novel,

e ignorais o bom, e o mau,

e o que tirastes do escote

foi ver, que era o seu picote

tão duro como um bom pau

Vós fostes bem esfregada

do burel esfregador,

mas depois o pão do amor

vos deixou mais bem pisada:



no bananal enramada

vos atastes ao cordão,

que vos fez a esfregação;

depois quem vos vigiou,

nas costas vos assentou

as costuras cum bordão.

Fingistes-vos mui doente,

e atastes no pé um trapo,

sendo a doença o marzapo

do Franciscano insolente:

enganastes toda a gente

fingidamente traidora,

mas eu soube na mesma hora,

que nos tínheis enganado,

e por haver-vos deitado,

fingis deitar-vos agora.

Eu sinto em todo o rigor

os vossos sucessos maus,

pois levastes com dois paus

um do Frade, outro do amor:



qual destes paus foi pior

vós nos haveis de dizer,

que eu não deixo de saber,

que sendo negras, ou brancas

é sempre um só pau de trancas

pouco para uma mulher.



Não vades ao bananal,

que e cousa escorregadia,

e eis de levar cada dia

lá no có, cá no costal:

sed libera nos a mal

dizei no vosso rosário,

e se o Frade é frandulário,

vá folgar a seu convento,

que vós no vosso aposento

tendes certo o centenário.

Muito mal considerastes,

no que o sucesso parou,

que o Frade vos não pagou,

e vós em casa o pagastes:

tal miserere levastes,

que vos digo na verdade,

fora melhor dá-lo ao Frade

porque é maior indecência

dá-lo a vossa negligência,

que à sua Paternidade.



A CERTO FRADE QUE TRATAVA COM UMA DEPRAVADA MULATA POR NOME VICENCIA QUE MORAVA JUNTO AO CONVENTO, E ATUALMENTE Á ESTAVA VIGIANDO DESTE CAMPANÁRIO.



Reverendo Fr. Sovela,

saiba vossa Reverência,

que a caríssima Vivência

põe cornos de cabidela:

tão vária gente sobre ela

vai, que não entra em disputa,

se a puta é mui dissoluta,

(continua...)

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