Por Camilo Castelo Branco (1869)
A corajosa menina, livre da velha, que adormecera quabrantada de insultos nervosos, fechou-se a ler as cartas do moço, e a escrever-lhe a noticia das tribulações daquele dia. Atraiçoada pela medianeira da correspondência, suplicou a Vitorina que fizesse entregar aquela carta, prometendo-lhe ser a última. Condoeu-se a criada, movida também pela esperança de ver terminado o funesto namoro, prenúncio de maiores desgraças. Foi ela propriamente entregar a carta, e pedir a Francisco da Costa que saísse de Viana, se não queria que a menina perdesse o amor de sua tia, e, pior ainda, a proteção do pai. Ainda assim, os dizeres da carta desdiziam dos rogos da criada. Ângela pedia-lhe amor e animo, paciência e esperança, jurando morrer antes de sucumbir a um casamento violentado.
O estudante esperou alguns minutos que as lágrimas o desafogasse, e, escrevendo, pedia perdão a Ângela da sua covardia. “Sou covarde – escrevia ele – porque fujo; covarde porque me não atrevo a ver o rosto da infelicidade que te ameaça. Vou sair de Viana. Quando souber que o meu nome passou do desprezo ao esquecimento de tua tia, voltarei. Se te encontrar tranqüila, não perturbarei o teu sossego. Para eu te adorar, como até aqui, em todas as situações estarás bem, minha amiga. Ainda ligada a outro homem, eu saberei separar o anjo da mulher. O que eu não quero, nem posso, é tirar-te o nome, o prestígio, o amparo e a honra que só é visível enquanto a consideração pública a proclama ou finge reconhecer...”
― Ele não me ama! – disse, entre soluços, D. Ângela a Vitorina. – Não me ama, e eu hei de ser muito desgraçada por amor dele!...
A criada louvava-se a si do conselho, e agradecia a Deus a honrada determinação do estudante, dando como terminado o lance em que o belo e rico futuro da sua menina corria perigo. Ângela, todavia, asseverava que tudo estava perdido para ela, e que só lhe restava reduzir-se à extrema pobreza e desvalimento do pai, a ver se assim o homem pobre e plebeu a queria para esposa.
Este plano, se viesse a realizar-se, era original, a meu ver; mas não sei que fados esquerdos se atravessam aos projetos épicos em matéria de casamento, se a poesia depende de uma casinha colmada, à ourela de um regato, com seis pés de couve na horta, e por cima lua, sol, estrelas e ar à discrição. A culpa de se malograrem estes sublimes intentos quem na tem é a sociedade, esta prosa derreada do gentio comum que assim que vêem pomba a librar-se três metros acima da lama, apedrejam-na, desasam-na, dão com ela em terra. É desgraça! Mulheres distintas com amores distintos é mister inventá-las. E maior desgraça ainda: as heroínas que se admiram e aplaudem no romance e no drama, seriam assobiadas, se tal gênero de pensar e viver se encarnasse em sinceras heroínas na vida real.
Ângela seria capaz de descer até nivelar-se com o irmão da Joana costureira; mas não a deixaram. Privaram-na de estremar-se do vulgar. Compeliram-na por maneira as circunstancias que não há aí maior rebaixamento onde pudesse ir sopesada uma alma primorosa em finezas de amor.
Vamos ver o que este mundo faz das mulheres que transcendem a craveira comum.
D. Beatriz, aconselhada pelo seu confessor, escreveu ao irmão precavendo-o contra a inclinação amorosa de sua filha, sem esconder o nome e a geração vilíssima do inquietador de Ângela. Por sua parte, a fidalga declinava de si a responsabilidade de alguma conseqüente ignominia de família, admoestando o general a que levasse Ângela para sua casa, e lhe insinuasse com o preceito sentimentos de dignidade e faro mais senhoril na escolha dos maridos. Esta linguagem metafórica devia ser do frade confessor. Só um egresso, descassado das boas práticas de sala, daria a uma senhora faro na escolha de maridos, assim à guisa de perdigueira de dois narizes que fareja a volataria.
Simão Barbosa não se assanhou. Respondeu placidamente que transferisse Ângela para o convento, e lhe fizesse saber que a rebeldia lhe redundava em passar da condição de senhora à de criada. “eu não sei bem de quem ela é filha. Apenas lhe conheci a mãe”. Este homem, escrito isto, devia acrescentar: “Eu deveras não sou pai dessa mulher, porque pude escrever esta resposta sem sentir o mínimo abalo de ódio ou de piedade. Se me dissessem que ela tinha casado com o filho do sacristão, daria ordem a um lacaio que os enxotasse da minha porta com um tagante”. Era o ermo, o tédio, a doença, a irreligião, a covardia em aniquilar-se, que empedravam o coração do general.
Uma hora, em certa noite, dezassete anos antes... hora negra foi essa que lhe enoitou a vida inteira. Ululava-lhe desde essa hora nos ouvidos um grito de garganta abafada. Nenhum rir de festa, nenhum gemer de infelizes, nenhuma aurora de paz vingou mais distraí-lo daquela noite, e do som final de uma corda de vida que lhe estalou entre os dedos.
Quando Ângela recebeu as ordens de seu pai, já Francisco da Costa ia caminho do Porto.
Mas que homem é este? Que idade tem? Que figura? Que despropósito de coração é esse que se escusa com feminil pavor a fazer rosto à desgraça, raras vezes vencedora, se a paixão braveja e se esbraseia num formidável “quero”?
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.