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#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

A nova galeria, que segue a direção do Convento dos Capuchinhos, já está explorada na extensão de dez metros, tendo sido ontem visitada pelos Drs. Lauro Müller, Paulo de Frontin, Getúlio das Neves, Emílio Berla, general Sousa Aguiar, Chagas Dória e vários engenheiros da avenida, que em seguida percorreram, em bonde especial, a Avenida Central.

Continuaremos amanhã a publicação de D. Garça, a narrativa que tanto interesse tem despertado e que tão intimamente se prende ás descobertas dos subterrâneos do morro do Castelo.

Correio da Manhã - domingo, 21 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO MORRO DO CASTELO

Novas Galerias — Uma Visita

Pouco a pouco vão se desvendando os mistérios das lendas seculares do morro do Castelo e a picareta dos trabalhadores vai descobrindo galerias, salas subterrâneas, confirmando o que dizem os roteiros.

Sobre a notícia que demos ontem do aparecimento de uma nova galeria, temos a retificar um ponto.

Não se trata de uma galeria e sim de uma sala subterrânea revestida de tijolos. Desta saem duas galerias: uma que corre paralela à avenida e outra que segue em direção ao convento dos Capuchinhos.

A primeira está com a abóbada descoberta e ainda não está desentulhada.

O mesmo acontece à sala.

A outra galeria, onde ontem penetramos graças à gentileza do Dr. Dutra de Carvalho, tem a boca estreita, que começa a se alargar depois de três metros. Daí em diante é uma vasta galeria revestida de tijolos e onde pode andar à vontade o homem mais gordo e alto.

Ainda não está desentulhada e a sessenta metros torna-se nela difícil a respiração.

Têm sido encontradas várias balas rasas e outros instrumentos de ferro carcomidos pela ferrugem.

Foram também encontradas algumas garrafas.

Os trabalhos continuaram toda a noite devendo ser suspensos hoje de manhã.

A galeria que está sendo desobstruída ficava exatamente num corredor do seminário de serventia privada dos padres. Acima da abóbada, grandes lajes suportavam a terra, sobre as quais foram construídos os suportes das vigas que agüentam o corredor.

Obra antiga e sólida, só a picareta poderia pô-la a descoberto.

Correio da Manhã - terça-feira, 23 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

Novas Galerias

Os trabalhos de desobstrução das novas galerias descobertas no sábado, suspensos por motivo do descanso dominical recomeçaram ontem sob a direção do Dr. Dutra de Carvalho.

A galeria que seguia sentido ascendente do morro ficou limpa até a distância de sessenta metros, e aí bifurca-se em duas direções.

O Dr. Paulo Frotin, em visita que se fez, deu várias instruções para este serviço.

Foram instaladas lâmpadas elétricas na parte desobstruída devendo o serviço prosseguir sem interrupção.

Além daquele engenheiro visitou as galerias o Dr. Lauro Müller, Ministro da Viação.

Têm sido encontrados vários pedaços de ferro carcomidos pela ferrugem e cuja serventia não se pode precisar.

Na ocasião em que se procedia ao desentulho da grande galeria desabou um pedaço da abóbada, não tendo felizmente havido vítimas.

Correio da Manhã - quarta-feira, 24 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

As Galerias do Castelo

O caso do dia que ainda preocupa a atenção do povo é incontestavelmente o das galerias do Morro do Castelo.

Tenazmente a picareta dos trabalhadores da Avenida, sob a hábil direção do ativo engenheiro Dr. Dutra de Carvalho, vai desvendando os mistérios das galerias.

Ontem à tarde foi encontrado um crucifixo, que se supõe ser de ouro e que mede cerca de oito centímetros.

Também foi encontrada uma imagem de madeira do Senhor dos Passos.

A galeria, que segue em sentido ascendente do morro, bifurca-se, como dissemos ontem, em duas galerias: uma em sentido reto e outra em direção ao convento dos Capuchinhos.

A primeira interrompe o seu trajeto por uma laje, presumindo-se que seja uma porta falsa, o que em breve saberemos com o prosseguimento das explorações.

Como se vê, o morro do Castelo ainda por muito tempo fornecerá aos curiosos novas notícias.

D. Garça

III

A Vingança do Jesuíta

Demandando os índios Goianases, cujas mulheres, segundo a fabulosa narração do Anhangüera, traziam como enfeites palhetas de ouro virgem, o jesuíta parte do Colégio de S. Paulo. Voga rio abaixo. A montaria desliza mansamente ao sabor da corrente.

Quatro carajás, ainda dos que vieram meninos no resgate de Pires de Campos, remam vagarosos e sem esforço. A velocidade das águas arrasta a tosca embarcação; e é bastante aproveitar-lhe o ímpeto para navegar célere.

À popa, o padre e o coadjutor se estreitam. Pequenos fardos de alimentos repousam aos seus pés e também na proa; é pouca coisa... Deus dará o resto para a viagem toda!...

O antigo marquês olha as margens.

Aqui, uma praiazita alva, límpida, ondula em graciosa curva. A canoa a descer é como um lápis a traçá-la.

(continua...)

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