Por Coelho Neto (1898)
Aqui fico, eu e a Morte, minha companheira. E que fez Elle ? Foi bom, amou, quiz ser generoso e aqui está para o sempre.
A Magdalena inclinou-se-lhe ao hombro segredando-lhe uma consolação :
— Resurgir, dizes. Ha de resurgir... E eu ? Cuidas que terei tanta força que espere tres dias, que passe todo esse tempo sem vê-lo, sem ouvi-lo ? Ainda que elle volte, ai ! de mim, não mais encontrará vivo o coração que o amou. Sinto que me desfaço em lagrimas. E tudo, em volta de mim, rejubila : os pássaros cantam, os ramos agitam-se e brilham estrellas no céu. Pois é possível que não saibam que morreu meu
Filho ? É possível ? Nos dias tristes toda a terra entristece e porque ha de a natureza ser indifferente á tristeza de uma alma ?
Rocha, agora és tu que o trazes, Elle jaz no teu seio, é teu Filho. Ai! de mim.
A Magdalena, posto que se conservasse ao lado da Dolorosa, mal ouvia as palavras que lhe sahiam dos labios. Não eram vozes, senão um sussurro tirado pela dôr como o murmulho das folhas á passagem do vento.
João, lembrando-se das ultimas recommondações do Mestre, tentou serenar o coração de Maria:
— Aquietai-vos, Senhora. Sois Mãi, é certo, e, por isso mesmo, mais do que todos deveis confiar na sua palavra. Elle veiu á terra conhecer a agonia humana, despiu-se da grandeza, divina e vestiu-se de soffrimentos.
De vós nasceu e chorou ao entrar na vida, sendo recebido pelo frio.
Crescera na pobreza, fez-se homem entre os simples.
Trilhou as estradas mais ásperas ao sol e á chuva ; visitou enfermos, ouviu opprimidos, verificou injustiças, conheceu a fome e a sede, a dôr das enfermidades e o peso das ingratidões.
Fez o milagre o foi apapado ; distribuiu o pão e deram-lhe o fel; resuscitou os mortos e acabou em uma cruz. Sorve, até a ultima gotta, o calice amargo e, a esta hora, já está no céu pedindo a seu Pai a misericordia para os homens.
O que agora lamentais não é o soffrimento, porque esse findou para Jesus ; lamentais a vossa solidão.
Mas os justos não morrem, porque deixam na terra o beneficio que os eteruisa.
É noite, não ha signal de sol no céu, mas escutai o crepitar do alfôbre : são as sementes que rebentam, porque o sol aqueceu-as e fecnndou-as. Virão arvores de sombra e fruto.
Elle aqui jaz sepultado no seio da pedra. Ide, porém, por todas as estradas e vê-lo-eis vivo o eterno. Elle é a esmola, Elle é a cura, Elle é a consolação, Elle é a prece.
A malga que o lavrador entrega ao mendigo faminto, foi Jesus que a encheu. O homem que espreme o balsamo na chaga do ferido foi guiado por vosso Filho. A mulher que se precipita para serenar o coração da viuva, ouvelhe a voz celestial e cumpre a sua ordem e a criança que se ajoelha, junta as mãos e ora, eternisa na prece a grande Fé que ha de consolar as almas.
O que ahi jaz pertence á terra, é o corpo. Não o choreis — levantai os olhos para o céu, lançai-o sobre o inundo afflicto e vereis que o vosso Filho vive.
— Oh! palavras que soam. Fazes commigo o que fazem as mais com os pequeninos: queres que eu adormeça e cantas, Deus! E tinha eu força para trazer um Deus... ? Sim, dizes bem... Deus! Só um Deus podia soffrer tanto e sem queixa, como Elle soffreu. Mas, ai! de mim, sou mulher, sou humana e as dores são muitas para a minha fragilidade.
Sabes que é um coração de mãi ? Eu mesma não sei como resisto a tamanha agonia.
A dor sustenta. Olho para todos os lados e vejo tudo deserto. O rumor que ouço é como o atrôo d'uma caverna. Estou no vazio, na solidão.
Antigamente — ainda hontem ! — mal anoitecia, eu ficava a esperá-lo. Se o vento sacudia a porta, logo me precipitava. Quantas noites passei em vigilia vendo, em vez d'Elle, entrar o sol da manhan.
Sabia-o longe e, quando me vinham referir os seus milagres, eu. chorava, invejando o enfermo que fora tocado pelas suas mãos, o morto que se levantara ao som da sua voz, o rochedo esteril que rebentara em fonte a seu mandado.
Elle andava a maravilhar as gentes e eu, ai! de mim, tão só, tão triste, sem, ao menos, poder vê-lo, ouvi-lo, porque Elle trocava o meu amor pela Humanidade e deixava os meus beijos sem pouso como avesitas perdidas nos mares Iargos que, exhaustas de voar, cahem e perecem na vaga. E agora...! É Deus, dizeis vós... E eu sou mãi. Ai! de mim.
Disse e, enlanguecendo, tombou como morta nos braços de Magdalena.
A noite scintillava estrellada e aves cantavam, ao luar, no horto que recendia.
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.