Por Lima Barreto (1911)
— O Doutor sabe que ele não deixou nada. Morreu pobre. Só deixou a casa em que moramos, o montepio, muito pequeno, e quase nada mais... Não nos é possível viver com isso, tudo está tão caro, Doutor, que requeri ao Congresso uma pensão.
Pronunciou as últimas palavras adoçando as sílabas com uma leve inflexão de sofrimento.
Numa perguntou:
— Muitos filhos, minha senhora?
— Um, uma filha.
— Julguei que fossem mais. Os jornais, se não me engano, disseram...
— São do primeiro casamento. Estão maiores, os filhos; e a filha, casada.
A senhora alongou o busto e explicou imediatamente:
— Não é justo, Doutor, que o governo deixe na miséria a viúva e a filha de um homem que tanto trabalhou pela pátria. Foi propagandista da República, bateuse pela abolição...
— Sei bem disso, mas esse negócio de pensão... esse negócio de pensão...
A senhora já falou com o senador Bastos?
— Já. Ele me disse que dava o voto dele.
— Vou ver.
— Dão-se tantas. Não deram à viúva de um calafate que morreu no incêndio de um navio de guerra? Meu marido foi um juiz íntegro...
— Não há dúvida, minha senhora; mas houve grande dificuldade em dar-se à viúva daquele general...
— Ah! Doutor! O montepio é muito grande; não é como o nosso, viúva de civis.
Numa passou o olhar pela sala e demorou-se um instante olhando o retrato do avô de sua mulher. Notou-lhe a expressão de energia, a agudeza do olhar e considerou depois a espessa moldura dourada. O legislador ia falar, mas a viúva tomou-lhe a palavra.
— É de toda a justiça, Doutor, o que peço.
— Não há dúvida, minha senhora! Não há dúvida! Conte comigo, minha senhora.
A viúva levantou-se e, estendendo a mão irrepreensivelmente enluvada, despediu-se:
— Obrigada, Doutor. Obrigada. E, sem querer incomodá-lo mais, desde já lhe agradeço muito o favor que me vai prestar.
Encaminhou-se para a porta e a marcha fez que ondas de essências caras envolvessem o doutor carinhosamente.
Ao pisar no patamar da escada, arrepanhou gentilmente as sedas da saia, voltou-se e cumprimentou, sorrindo, o deputado, que a levara até aporta da entrada.
Edgarda tinha continuado, na sala de jantar, a leitura do seu querido Anatole France. Relia o volume e se detivera na frase em que um velho acadêmico, depois de cochilar um tanto, afirma: “Rassurez-vous, madame: une comète ne viendra pas de si tôt heurter la terre. De telles rencontres sont extremement peuprobables!.
Lembrou-se bem do fim do almoço e ficou segura de que o fim do mundo estava indefinidamente adiado.
Tendo-se despedido da viúva, Numa voltou à sala de jantar, já com o chapéu na mão, para sair. A mulher perguntou.
— Quem era essa senhora?
— É a viúva do Lopo Xavier.
— Que queria ela?
—O meu voto para que lhe fosse concedida uma pensão que requereu.
— Prometeste?
— Prometi.
— E o Bastos? — Não se incomoda — Tu a conheces?
— Não.
— Pois saibas tu de uma coisa: ela é rica, não muito, mas tem com que viver.
— Quem te disse?
— Todos sabem. O pai deixou-lhe dinheiro e o marido alguma coisa. O que ela quer é luxar... Não precisa... O que tem dá e sobra.
Os dois calaram-se e Numa ficou um instante parado, hesitando em despedir-se da mulher. Não achava nenhuma gravidade na promessa. Que podia ser? Trezentos ou quatrocentos mil-réis por mês. Adiantou-se para beijar a mulher, quando esta lhe perguntou de repente:
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.