Por Aluísio Azevedo (1887)
E Ela, no murmúrio das suas orações, dizia-lhe ternuras de esposa; pedia-lhe consolos e confortos, que ele não lhe podia dar; falava-lhe com o magoado orientalismo do "Cântico dos Cânticos"; e suas palavras eram quentes como beijos e ternas e doloridas como suspiros de quem ama. Por aquela imagem querida acentuava na sua imaginação e melancólica figura desse ente perfeito e desejado, de que na Bíblia lhe falavam as filhas de Jerusalém. Era esse o amado que, em sonhos, lhe pedia para pedir a porta, porque lhe estavam correndo pelos anéis do cabelo as gotas da noite; esse era o amado cândido e rubicundo, escolhido entre milhares; era esse, cujos olhos são ternos e doces, nem como as pombas que, tendo os ninhos ao pé do regato das águas, estão lavadas em leite e se acham de assento junto das mais largas correntes dos rios; era esse o amado, cujas faces são iguais a canteiros de flores aromáticas e cujos lábios destilam a mais preciosa mirra; era esse de mãos superfinas, feitas ao torno, cheias de jacintos; esse de ventre de marfim, guarnecido de safiras; esse de pernas de mármore sustentadas sobre bases de ouro; esse que era escolhido como os cedros e cuja figura a chorosa e lânguida sulamita comparava ao Líbano.
Era esse que ela supunha amar; a quem supunha dar tudo o que seu coração e alma possuíam; e, vendo-se descoberta e proibida de ir às místicas entrevistas com ele, foi tomada por um grande desgosto, sobrevindo as convulsões, e tendo de guardar a cama por muitos dias, porque lhe apareceu então uma febre de caráter especial, apresentando todos os sintomas da pirexia comum, mas que todavia não se subordinava aos medicamentos que a esta combatem.
— Ora aí tem! É a febre histórica! Classificou logo o Dr. Lobão. E, em resposta às perguntas do Conselheiro, despejou um chorrilho de nomes técnicos, dizendo que: "Aquilo não podia ser febre tifóide, nem ter sua origem na flegmasia encefálica, nem tão pouco na alteração de algum órgão esplâncnico, porque uma meningite, ou uma encefalite ou mesmo a febre tifóide comum não poderia chegar àquele grau, por que não havia doente capaz de resistir!"
O certo é que Magdá, ao levantar-se da tal febre, estava reduzida a uma fraqueza extrema. Voltaram-lhe a dor da espinha, a tosse e a inapetência completa; se insistia em comer, vomitava incontinente. O Dr. Lobão, na sua venerável pretensão de médico antigo, declarou sem cerimônia que, "pela contração tônica dos músculos, pressentia a aproximação da letargia".
— A letargia! Agora é que eram elas! Aí estava o que ele menos desejava que viesse!
Depois de praguejar contra todo mundo e ralhar cuidadosamente com o Conselheiro, aconselhou a este que levasse a doente para outro arrabalde mais campestre, onde não houvessem igrejas perto de casa e onde ela pudesse estar mais em liberdade e mais em movimento. E, logo que se sentisse melhor, convinha despertar-lhe o gosto por qualquer ocupação manual. "Nada de belas artes, nem leituras! Exclamava o cirurgião. — Jardinagem, serviço de horta, jogos de exercícios, como o bilhar, a caça, a pesca! E passeios! Muitos passeios ao ar livre, pela fresca manhã, sem chapéu, sem muito medo de apanhar sol! E, se os passeios fossem depois de um banho bem frio — melhor seria! Era preciso que Magdá não deixasse de tomar ferro e aquele xarope de Easton, que ele receitara. Na alimentação devia procurar sempre comer um pouco de carne sangrenta, mariscos, e tomar bom vinho Madeira."
— Ora, aí tem! Faça isto, concluiu ele, e veja se consegue esconder-lhe o diabo dos tais livros religiosos, que ela tem lido ultimamente.
E resmungou ainda, depois de novas pragas: — Pena é que se lhe não possa esconder também aquela barata velha, que é ainda pior do que todas as cartilhas da doutrina cristã!
VII
A mudança estava marcada para daí a quinze dias. Iriam refugiar-se na Tijuca, num casarão, que o Conselheiro possuía para essa bandas. Sobrado muito antigo e de aparência tristonha, todo enterrado no fundo de uma chácara, enorme e destratada, que em alguns pontos até aprecia mato virgem. Janelas quase quadradas; paredes denegridas pela chuva e pelo tempo; nas grades da escadaria principal heras e parasitas grimpavam livremente; as trapoerabas cobriam os degraus e alastravam por toda a parte; e lá no alto, à beira desdentada do telhado, habitava uma república de andorinhas.
Para chegar à casa, tinha-se de atravessar uma longa e tenebrosa alameda de mangueiras, que começava logo no portão da entrada e se ia estendendo por ali acima lúgrebe como um caminho de cemitério. Era triste aquilo com os seus altos muros de pedra e cal, pesados, cobertos de limo, e transbordantes de copas de árvores velhas. O casarão, olhado pelas costas ou pelo franco esquerdo, deixava-se ver em toda a sua grosseira imponência, porque dava esses lados para a rua, fazendo esquina com as suas próprias paredes. Metia aflição entrar lá; um pavoroso silêncio de igreja abandonada enchia os enormes quartos nus e enxovalhados de pó; um ar frio e encanado, como o ar de corredores de claustro, enregelava e oprimia o coração naqueles longos aposentos sem vida. Tudo aquilo transpirava cheiro de velhice, cheiro de moléstia; sentia-se a friagem da morte e a fedentina úmida das catacumbas.
O Conselheiro, porém, mandou correr uma limpeza geral na casa; fez ir para lá os móveis e objetos necessários; e, uma bela tarde, meteu-se afinal num landeau com a filha e mais a velha Camila e abandonaram Botafogo.
Foram com o carro fechado até certa altura do caminho, porque Magdá, de tão incomodada que passara a noite da véspera, não tivera ânimo de por outra roupa e apenas enfiara um sobretudo de casimira e agasalhara a cabeça e o pescoço com uma saída de baile.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.