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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Ah! Eu contava despedir-me do morro do Castelo neste primeiro passeio à Sé do Rio de Janeiro, e reconheço agora que não se deixa este célebre monte com duas razões e meia.

Tenho ainda muito que dizer a respeito dele. Mas é de regra que não se faça um longo discurso sem molhar a palavra. A regra é parlamentar. Foi estabelecida na Câmara temporária, adotada por unanimidade de votos no Senado, e portanto, posso bem admiti-la nos meus passeios.

Vou beber um copo d’água.

No corpo legislativo quem paga os copos d’água (e são caros como brilhantes sem jaça) é o tesouro público. Neste meu passeio quem mo vai pagar é o meu velho amigo o coronel Gabizo.

Descansem, pois, os meus companheiros de passeio, enquanto molho a palavra.

II

Subir o morro do Castelo, percorrê-lo, estudar, embora muito rapidamente, a sua história e descer enfim desse velho e desprezado ca pitólio da cidade do Rio de Janeiro, sem ter parado, por alguns minutos ao menos, diante do antigo colégio dos jesuítas, fora o mesmo que ir a Roma e não ver o papa.

Paremos, portanto, defronte desse bem pouco bonito e não pouco interessante edifício que se mostra, como todos sabem, e quem quer vê, no morro do Castelo, à mão esquerda de quem sobe pela ladeira chamada no outro tempo do colégio e agora da misericórdia, e tal qual era no século passado, com a exceção de um alegre e elevado terraço que havia na sua extremidade do lado direito, e que recentemente recebeu teto e janelas e oferece novas acomodações na casa.

Não farei uma descrição do edifício, nem levarei os meus companheiros de passeio a visitar suas numerosas salas e seus corredores, que sucessivamente têm ouvido orações e misteriosos conselhos de jesuítas, gemidos de doentes e moribundos, lições de respeitáveis lentes e cantos e risadas de estudantes de medicina, e outra vez lamentos de enfermos e suspiros de agonizantes.

Não farei descrições, repito, e limitar-me-ei a lembrar alguns pontos principais da história dessa casa grande.

Já disse em outro lugar que os jesuítas entraram no Rio de Janeiro com Estácio de Sá, e que arranjaram logo o seu ninho na cidade nascente, fundada por Mem de Sá em 1567.

Da Crônica da Província do Brasil, do padre Simão de Vasconcelos, copio a lembrança desse fato.

“... No coração da cidade deu Mem de Sá sítio, onde os padres escolheram, para fundação de um colégio e logo em nome de S. A. o sereníssimo Rei D. Sebastião, de saudosa memória príncipe liberal, lhe aplicou dote de renda necessária para sustento de até cinqüenta religiosos, que aceitou e agradeceu em nome de toda a companhia o P. visitador Inácio de Azevedo. A escritura autêntica do dito dote se passou depois em Lisboa, firmada pela mão real em 6 de fevereiro do seguinte ano de 1568.”

Os jesuítas foram os mais felizes dos primeiros habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Porque, como fica dito, tiveram logo segura a sua subsistência à custa do Estado e puderam muito desembaraçadamente meter mãos às obras do seu colégio, que levantaram e foram au mentando, sem que, contudo, conseguissem acabá-lo todo com a grandeza que tinham planejado, pois que, em 1759, deixaram a igreja apenas começada, e paredes e muralhas imensas que prometiam um edifício majestoso.

Os padres da Companhia de Jesus foram sempre e em toda a parte muito buliçosos e rusguentos, e no Rio de Janeiro achavam-se em luta constante com o povo, e por vezes criaram sérios embaraços ao Governo.

Ligando-se à autoridade eclesiástica, que em compensação apadrinhava os seus interesses temporais, os jesuítas a protegiam em suas pretensões de invadir as prerrogativas do poder civil.

Tratando de aumentar suas riquezss com a posse de extensos territórios, os padres da Companhia rompiam em contestações com o povo, que era apoiado pela Câmara, que chegou uma vez a ser excomungada, e tornavam-se aborrecidos pela sua ambição inexcusável.

E finalmente, defendendo com ardor a liberdade dos índios, que lhes fazia muita conta, servindo aos seus cálculos de poder e de engrandecimento, viam-se constantemente em contendas com os colonos.

Em conseqüência de uma dessas questões de índios, levantou-se uma vez o povo da cidade do Rio de Janeiro (e também em São Paulo, onde a desordem tomou caráter muito mais sério), e os jesuítas viram-se ameaçados no seu próprio colégio.

(continua...)

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