Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
No ano de 1568, ou no seguinte, Cristóvão de Barros veio substituir a Salvador Correia de Sá, e não deixou seu nome lembrado por feito algum importante no governo da nascente cidade. Em 1574 o Dr. Antônio Salema sucedeu a Cristóvão de Barros, trazendo o elevado caráter de governador-geral das capitanias do sul do Brasil, e cuidou mais em matar e escravizar índios do que no culto divino. Entendeu lá para si o sabichão magistrado que era menos digno do seu alto poder acabar a casa começada para S. Sebastião do que incendiar aldeias de gentio, fazer horrorosas matanças nesse rude povo e lançar em cadeias de nefanda escravidão alguns mil caboclos que caíram em suas mãos, quando ele já estava bem farto de sangue. Não construiu, destruiu. A beca do famoso magistrado deixou no Rio de Janeiro um rasto de sangue e de horrores. Era uma beca que levava fogo na cauda.
Dizem que o Dr. Antônio Salema foi um grande civilizador e que pôs tudo em boa ordem nos seus domínios. Ah! meu Deus quanto aleive se tem levantado às idéias de civilização e de ordem! Eram capazes de dar patente de civilizador a um tigre, e de chamar ordeiro a um algoz!
Em 1578, Salvador Correia de Sá, tornando a ser encarregado do governo do Rio de Janeiro, deu novo impulso à obra da igreja que mandara construir no alto do morro do Castelo, e conseguiu enfim vê-la de todo acabada no ano de 1583.
Foi esta a segunda igreja de S. Sebastião no Rio de Janeiro.
Ignoro se a sagrada imagem do padroeiro da cidade foi nesse ano levada para a nova casa, ou se desde algum tempo ali já se achava em algum altar provisoriamente armado. Mas, com certeza, foram em 1583 transferidos para a igreja mencionada os ossos de Estácio de Sá, que descansavam na sua sepultura da capela de Vila Velha.
A trasladação dos ossos do primeiro governador do Rio de Janeiro, o valente capitão que selou com o seu nobre sangue a vitória dos portugueses em janeiro de 1567 foi feita com todas as honras militares e religiosas, e sobre a sua campa, na igreja nova do Castelo, ficou gravado o seguinte epitáfio: “Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador desta terra e cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correia de Sá, seu primo, segundo capitão e governador, com as suas armas. E essa capela acabou no ano de 1583.”
Declarou o padre José de Anchieta, o muito célebre jesuíta, que Estácio de Sá falecera com grandes sinais de virtude que em toda aquela conquista tinha mostrado, e que no ato de se abrir a sua sepultura e de se trasladarem seus ossos, experimentara um servo de Deus da Companhia de Jesus que saía deles um cheiro suave como sinal de que gozava sua alma da felicidade da glória.
Pizarro pensa com razão que o tal servo de Deus da Companhia de Jesus, que experimentara o cheiro suave, fora o próprio padre José de Anchieta, e eu, pela minha parte, limito-me a dar notícia do caso com o nome da testemunha que o referiu, e abstenho-me de reflexões.
À parte a questão do cheiro suave dos ossos de Estácio de Sá, é indubitável que a sepultura desse ilustre varão tem para nós grande importância histórica. E assim o entendeu o atual imperador do Brasil o Sr. D. Pedro II, quando, ainda bem jovem, em 1842 ou 1843, depois de uma visita com que honrou a Escola de Medicina, foi pessoalmente procurar aquela sepultura na igreja de S. Sebastião do Castelo, e aí gastaria, sem dúvida, bastante tempo antes de descobri-la, pois que nenhum dos empregados da igreja tinha idéia dessa antigualha, se entre diversos estudantes de medicina que tiveram licença para acompanhar Sua Majestade não se achasse um que, por muito louvável curiosidade, tinha já descoberto aquele tesouro da história do passado, conseguindo decifrar o epitáfio do primeiro governador do Rio de Janeiro.
O estudante de que falo é hoje o Sr. Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, lente da Escola de Medicina, que se ufana de contemplar nele um dos seus mais ilustres filhos.
Estou convencido de que atualmente a sepultura de Estácio de Sá é objeto dos mais solícitos desvelos dos frades barbadinhos que se acham de posse da igreja de S. Sebastião do Castelo. Porque estes religiosos quererão provavelmente pagar, ao menos, com um tão louvável cuidado, as inocentes e civilizadoras conquistas que vão efetuando no morro onde se foram asilar.
À vista do que acabo de expor, creio que fica bem e positivamente determinado que S. Sebastião, o padroeiro da nossa heróica e leal cidade, teve o seu primeiro altar em uma casa de palha na Praia Vermelha, e o segundo em uma casa de taipa no monte do Castelo, e que nesta recebeu o cabido do Rio de Janeiro.
Esclarecido, pois, este ponto, entremos no estudo da Sé do nosso bispado.
Mas... eis aí o morro do Castelo, que pede a palavra pela ordem e exige que lhe paguemos o tributo de alguns momentos de atenção.
É impossível não satisfazer uma tão justa exigência. A Sé não pode ser impaciente. Bem vê que é um monte que está clamando. Ah! E eu tenho bem receio que deste clamor de montanha vá nascer um ratinho.
Não importa. Direi alguma coisa da história do morro do Castelo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.