Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador-geral Mem de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.
Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.
Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente refiro uma tradição conservada por alguns autores.
Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes pala vras: “A quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas [referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta] que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos.”
Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: “Deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por muitas pessoas visto no combate pelejar diante dos portugueses um mancebo tão valoroso quanto desconhecido, que a piedade e a devoção julgou ser o glorioso santo ao qual haviam tomado por protetor, memória que sempre conservou aquela cidade nos cultos de padroeiro que lhe dedica.”
Entrego a tradição aos meus companheiros de passeio tão fielmente como a recebi. Dei aos pais a criança, e portanto, estou livre de toda a suspeita de paternidade.
Mas não se comem trutas a bragas enxutas. S. Sebastião tornara invictos, porém não invulneráveis, os portugueses. Estácio de Sá foi na peleja ferido no rosto por uma flecha, e morreu depois de não poucos dias de sofrimento, recebendo sepultura sob o teto de palha da igreja que levantara.
Mem de Sá, que era obrigado a voltar para a cidade do Salvador, capital do Brasil, resolveu primeiro mudar da Praia Vermelha para melhor posição o assento da nova cidade, e acertou escolhendo um monte que depois se chamou do Castelo, e a praia que lhe fica vizinha. Deu logo princípio aos trabalhos, e retirando-se, enfim, nomeou governador do Rio de Janeiro outro sobrinho seu, Salvador Correia de Sá.
Indubitavelmente o novo governador, Salvador Correia de Sá, prestou muitos serviços e mostrou-se digno da honra que lhe fizera e da confiança que depositara nele seu tio. Mas esta sucessão de parentes não sei se trouxe consigo um cheirinho de mau agouro... Dir-se-ia que o Rio de Janeiro estava destinado a ser uma espécie de feudo de um círculo privilegiado. Eu embirro com o domínio dos sobrinhos de seu tio sobre qualquer terra e qualquer povo. É uma simples embirração. Vamos adiante.
Roma não se fez num dia, e portanto, não é de admirar que a cidade do Rio de Janeiro não se fizesse em um ano.
Salvador Correia de Sá animou os colonos portugueses, excitou-os a levantarem suas cabanas e deu-lhes bom exemplo, construindo no morro do Castelo o seu primeiro palácio, que, sem dúvida, foi de pau-a-pique e teto de palha. Os jesuítas arranjavam o seu ninho no Rio de Janeiro, tendo um dos olhos fito no gentio, o outro no futuro e a alma ocupada ao mesmo tempo do serviço espiritual de Deus e das conveniências temporais deste mundo. Eram (e dizem que continuam a ser) uns padres que sabiam arranjar perfeitamente os seus negócios, adorando a Deus e entendendo-se com o Diabo.
A nova cidade ia-se desenvolvendo. Construíam-se casas no morro do Castelo e perto do mar no sítio ocupado depois pela Santa Casa da Misericórdia e em suas circunvizinhanças.
A nascente e já desprezada povoação da Praia Vermelha ficou sendo chamada Vila Velha, até que esse mesmo nome perdeu com o desaparecimento das cabanas que a formavam e que pouco e pouco foram caindo.
O que eu não sei ao certo, mas admito como provável, é que
Salvador Correia de Sá mandasse levantar no morro do Castelo alguma capela
provisória. Mas é positivo que desde logo esse ativo governador meteu mãos à
obra de uma nova igreja mais decente feita de grossa taipa, como permitiam as
circunstâncias do tempo. Infelizmente, porém, esses trabalhos pararam com a
terminação do seu primeiro governo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.