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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Ouviram-se nessa capela os nossos principais oradores sagrados. Mas, por certo, que não se pode contar no número deles um padre Fuão de tal Macedo, que andava de hábito de Rilhafoles, e que ali ia pregar muitas vezes com o fim de doutrinar o povo.

Esse padre Macedo não pregava sem ajudante, e o seu ajudante era sempre algum menino por ele industriado.

O padre subia ao púlpito, e em baixo do púlpito postava-se o menino.

Começava o orador o seu discurso, e imediatamente estabelecia um diálogo com o ajudante, que em caso de aperto, por esquecimento do seu papel, tinha o recurso de responder a tudo, bradando: “Sim, padre! Sim, padre!”

Ainda vivem pessoas que ouviram alguns desses sermões em diálogo, pregados pelo padre Macedo.

Organizaram-se na capela de N. S. do Parto algumas irmandades, e entre elas floresceu bastante a de Santa Cecília, irmandade de que proveio, penso eu, a sociedade de música do Rio de Janeiro, instituição de beneficência, a que deve o Brasil a fundação de um conservatório de música, que andou manquejando por muito tempo, e ainda hoje não anda o melhor possível, sendo de esperar (a esperança é tão doce!) que dentro em pouco marche perfeitamente como convém ao país e à arte musical.

Uma das irmandades estabelecidas na capela de N. S. do Parto deve desvanecer-se de uma singularidade, pois, se não me engano, tem uma reforma do seu compromisso aprovado, e talvez sancionada por portaria ou talvez por decreto de um juiz de paz.

A reitoria do seminário de S. José, pelo direito que lhe deu o bispo com a portaria de 13 de novembro de 1829, se ocupa desde algum tempo em recuperar diversos bens pertencentes à capela de N. S. do Parto, e que, segundo parece, não eram por ela aproveitados, e conseqüentemente forçada se tem visto a demandar com o governo e com irmandades.

Reivindicando a posse da casa do antigo recolhimento, mostrou aquela reitoria o seu direito ao governo, e com este conseguiu, a 15 de abril de 1861 fixar um contrato de locação da mesma casa por nove anos.

Em suas questões com algumas irmandades das estabelecidas na capela de N. S. do Parto, vai sendo igualmente feliz a reitoria do seminário de S. José.

Não tenho nem tempo, nem disposição para estudar profundamente essas questões judiciais da mitra ou do seminário de S. José com o governo e as irmandades estabelecidas na capela de N. S. do Parto. Preciso seria fazê-lo para que, no tribunal do meu passeio, desse eu a minha sentença.

Salto por cima dessas questões, e deixo a cada uma das partes o cuidado de sustentar e provar o seu direito. Mas não nosso abster-me de confessar que tenho motivos para fazer uma censurazinha, ou mesmo censurazona ao seminário de S. José e às irmandades estabelecidas na capela de que trato.

Quem entra nessa capela encontra os altares cheios de poeira, as paredes nunca espanadas, e uma falta de asseio e de cuidado que são verdadeiras ofensas ao culto.

Quem deve carregar com a culpa de tanta incúria? Sobre quem deve cair tanta poeira? Não discuto, não sei. Sustento somente que há necessidade de algumas escovadelas.

Tal foi o recolhimento, e tal foi e tal é a capela de N. S. do

Parto.

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A Sé do Rio de Janeiro

I

POSITIVAMENTE não contáveis com um passeio à Sé do Rio de Janeiro.

Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, e sem dúvida, vós supuzestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.

Acrescentai mais uma suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.

Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reisinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.

Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar à rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do Boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o tesouro nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.

Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.

Comecemos.

(continua...)

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