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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A Santa Casa de Misericórdia foi o seio onde se abrigaram as meninas e moças que então ainda havia no recolhimento. É certo, porém, que nem todas seguiram esse destino, e que uma ou outra ficou vivendo no século, e recebendo uma pensão ou mensalidade paga, creio eu, pela mitra.

Ainda hoje, vê ir correndo o tempo, e rende, por isso e por outros favores, graças a Deus uma, pelo menos uma, das antigas recolhidas de N. S. do Parto. Mas não quero dizer quem é, nem onde mora, para poupá-la às visitas e perseguições dos curiosos que de ordinário se mostram sobremaneira impertinentes.

Assim, pois, o ano de 1812 pôs um ponto final ao recolhimento de N. S. do Parto.

Devemos ter saudade dele? Creio que não.

Esse recolhimento nem era um estabelecimento criado para instrução e educação de meninas, nem um convento de freiras. Abrigo de mulheres sem voto, serviu também, e muitas vezes para reclusão de filhas e de esposas condenadas por seus pais e por seus maridos.

Como simples retiro destinado àquelas que, aborrecidas do século, desejavam fugir ao mundo e consagrar-se exclusivamente a Deus, era, sem a menor dúvida, muito desnecessário, porque a mulher que, desenganada das ilusões do século, quer engolfar-se no amor divino, tem o mais completo dos retiros do mundo no exclusivismo desse amor puro e santo. Que receia ela fora das grades e dos muros de um recolhimento? A tentação do Diabo? Ah! porventura o Diabo não tem penetrado mil vezes nos recolhimentos e nos claustros? Não é o hábito que faz o monge.

Como reclusão para filhas desobedientes e esposas infiéis, era um abuso da prepotência do homem sobre a mulher e um castigo que a lei não autoriza nem pode autorizar, porque, além de tudo, permitia que o homem fosse ao mesmo tempo juiz e algoz, e que a ré, criminosa ou não, fosse julgada, condenada e punida sem que pudesse um só momento fazer-se ouvir.

Convenho em que era um excelente recurso para os maridos que se aborreciam de suas mulheres. Mas a religião não deve proteger a prepotência.

Como estabelecimento de educação para o sexo feminino, poderia ser muito útil, uma vez que fosse bem dirigido. Mas ainda bem que não perdurou, sendo o que era. Porque, se houvesse perdurado, talvez estivesse agora entregue a certas professoras de religiosa importação, que no Brasil florescem fora da lei ou acima da lei, pois que nem ao menos são sujeitas a exame das matérias que ensinam, sendo, aliás, isso a todos determinado e de todos exigido pelos regulamentos da instrução pública.

E bom foi que não tivesse sido convento de freiras, em vez de simples recolhimento de mulheres sem voto, o asilo de N. S. do Parto, porque assim contamos de menos um desses anacronismos de pedra e cal que ainda hoje existem, uma dessas tristíssimas prisões onde, a par de algumas, talvez bem poucas, respeitáveis e santas vocações, gemem em perpétuo tormento muitas pobres senhoras que poderiam ter sido dignas e virtuosas mães de família, e dado à pátria filhos prestantes e beneméritos.

Não me chamem irreligioso. A religião não pode andar em briga com a natureza. A primeira lei de Deus não pode ser ultrajada pelos homens em nome do mesmo Deus.

A mulher que por vocação, por arrependimento ou por qualquer outro motivo entender que lhe cumpre separar-se do mundo e procurar ser agradável a Deus, sujeitando-se a quantas privações e austeridades se observam nos conventos mais rígidos, pode bem fazê-lo em sua casa, e por certo que será prática mais meritória a observação de todas as regras claustrais no seio da liberdade do que dentro dos muros de uma prisão, e em conseqüência de um voto perpétuo, que equivale a um suicídio moral.

Os conventos são sepulturas de muitos corações que palpitam, almejando debalde a vida.

Um voto de freira é um roubo feito à sociedade. É a morte antes de se ter morrido. Nas portas dos conventos estariam bem cabidas as palavras que o Dante escreveu na entrada do seu Inferno.

Mas por onde vou eu? Fiz protestos de concisão, e estou divagando como um deputado que fala sobre o voto de graças. E em que me fui meter? Quem sabe se desabará sobre mim alguma horrível trovoada?

Corro a abrigar-me no seio sagrado. Entro na capela de N. S. do Parto.

Já dei uma ligeira idéia do triste e feio aspecto exterior desta capela e do antigo recolhimento que se exteriormente não é feio nem triste, mostra-se, pelo menos, irregular, muito comum e sem beleza alguma de arquitetura.

Completarei agora aquela rápida e insuficientíssima descrição, estudando o interior da capela.

Do antigo recolhimento falarei mais tarde, quando visitarmos o hospital da ordem terceira do Carmo.

O nosso muito ligeiro exame e passageira apreciação hão de limitar-se à sacristia e ao corpo principal da capela.

Comecemos pela sacristia.

(continua...)

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