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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Luís de Vasconcelos tinha palavra e vontade forte, e no arbítrio e no despotismo recursos vigorosos para fazer-se obedecido.

Quando encontrava um obstáculo que lhe impedia a marcha, franzia as sobrancelhas, e o obstáculo desaparecia. Em uma hora, com quatro ordenanças, realizava mais do que hoje o Ministério das Obras Públicas em um ano, com toda a sua secretaria e com todos os seus engenheiros, empregados e exército de trabalhadores.

Apesar disso, confesso que não quisera ter vivido no tempo em que a liberdade e a sorte dos brasileiros pendiam dos cabelos das sobrancelhas do vice-rei.

Porém, Luís de Vasconcelos quis, mandou e fez-se.

Quentes estavam ainda as cinzas resultantes do incêndio, e tinham já começado as obras da reedificação da capela e do recolhimento de N. S. do Parto.

Como por encanto, apareceram madeiras, materiais e trabalhadores de sobra.

E dirigindo as obras, solícito, infatigável e zeloso mostrava-se, correndo de um para outro lado, e falando e gritando, com um acento minhoto muito forte que adquirira em Portugal o feio, mas habilíssimo mestre Valentim, a quem todos conheciam mesmo de longe pelo infalível capote de pano cor de vinho, que nas horas de trabalho e em seus passeios à noite trazia constantemente, quer fizesse calor, quer frio.

O capote cor de vinho do mestre Valentim era célebre no Rio de Janeiro, e mais de uma vez tinha sido o denunciante de seu dono, em algumas empresas amorosas.

Com tanto vigor e atividade foram as obras executadas, que se acharam prontas no fim do mesmo ano de 1789, e no dia 8 de dezembro puderam voltar N. S. do Parto ao seu trono e as recolhidas ao seu asilo.

A reedificação não mudou o aspecto nem as proporções dos edifícios, o que não pouco incomodava o mestre Valentim.

– Então, mestre? – perguntaram-lhe uma vez. – Concluiu, en-fim, as suas obras?

– Aquelas obras não são minhas – respondeu o arquiteto. –Aquelas obras são do vice-rei.

Na tarde do dia 8 de dezembro de 1789, toda a população da cidade do Rio de Janeiro acudiu ao largo da Carioca, à ladeira de S. Antônio e à rua do Parto para testemunhar a aparatosa solenidade da volta de N. S. do Parto e das recolhidas aos seus antigos domínios.

Houve uma brilhante procissão em que tomaram parte diversas corporações religiosas e todas as pessoas gradas da capital.

A S. do Parto foi conduzida em um rico andor carregado aos ombros do vice-rei Luís de Vasconcelos e dos homens mais graduados que a cidade contava.

Imediatamente depois do andor, vinham as recolhidas, duas a duas, com os olhos baixos e dando graças ao céus em piedosas orações.

O povo mostrava entre as recolhidas a mísera Matilde, que caminhava menos alegre e mais perturbada que todas as suas companheiras.

A procissão, que saíra da igreja de S. Antônio, onde tinha sido recolhida a imagem sagrada, seguiu logo para a capela reedificada, e aí foi a S. do Parto colocada no seu trono, e em seguida encerraram-se as recolhidas no seu asilo.

No dia seguinte, celebrou-se uma pomposa festividade religiosa na capela nova.

O vice-rei Luís de Vasconcelos fez doação do que se despendera com as obras da reedificação da capela e do recolhimento à mitra do Rio de Janeiro, ficando, pois, desde então, uma e outra debaixo da guarda e como propriedade episcopal, o que ainda mais confirmou a portaria do Ministério dos Negócios do Reino, datada de 30 de setembro de 1812.

Dezessete anos mais tarde, outra portaria, de 13 de novembro de 1829 (essa, porém, do bispo do Rio de Janeiro, passou a capela e a casa do recolhimento de N. S. do Parto para o domínio do seminário episcopal de S. José, como parte do seu patrimônio, com a obrigação de sustentar o mesmo seminário o culto religioso na capela).

Mas, a esse tempo, já o recolhimento pertencia apenas à história do passado, tendo desaparecido essa instituição em conseqüência de uma espécie daquelas aposentadorias que, em seguida à vinda da família real portuguesa para o Brasil, puseram a tanta gente com os trastes na rua.

O palácio real tinha, em 1808, conquistado o convento dos Carmelitas e a igreja dos mesmos, que se tornara em capela real. E pouco depois, operou a conquista do hospital da Ordem Terceira do Carmo, que ficava contíguo, e ali estabeleceu a biblioteca também real, que foi franqueada ao público. Sendo, porém, indispensável compensar a perda sofrida pela Ordem Terceira, deu-se-lhe a casa do recolhimento de N. S. do Parto para aí ser arranjado o hospital.

Essa mudança efetuou-se em 1814. Desde 1812, porém, o recolhimento já tinha deixado de existir, ou porque se calculasse com a necessidade da compensação, que se realizou dois anos mais tarde, ou porque tivesse parecido a casa das recolhidas precisa e conveniente para algum outro mister.

(continua...)

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