Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Quando se dissiparam as trevas daquela tormentosa noite, Gil Soares foi encontrado ainda com a mordaça na boca, com os vestidos cheios de sangue e atado à arvore, como o deixara Leôncio Peres.
Debalde procuraram fazê-lo dar esclarecimentos sobre os motivos e os autores de semelhante violência. Gil Soares não se atreveu a acusar aquele pai cruel e selvagem. Porque também a si acusaria, publicando a verdade.
Leôncio Peres e Ana Campista desapareceram para sempre. O fim que ambos tiveram foi um mistério que nunca se revelou, e de que provavelmente a natureza deveu horrorizar-se.
Eis aqui a história do incêndio da capela e do recolhimento de N. S. do Parto, como a ouvi daquele padre velho de quem tenho já falado aos meus companheiros de passeio.
Mas eu estou convencido de que esse meu respeitável informante arranja de vez em quando, e apesar de ser padre, suas petas muito honradamente. E, pois que não desejo que nos nossos passeios a verdade seja sacrificada aos encantos da imaginação, vou dizer o que é preciso para impedir esse grave inconveniente.
Quem quiser prestar fé inteira à história que me contou o padre velho pode fazê-lo, na certeza de que não virá por isso grande mal ao mundo, e tenho a consolação de afirmar que muitas outras correm por aí tão autênticas e positivas como esta.
Pela minha parte, creio que o padre velho arranjou um romance em vez de contar-me uma história verídica. Entretanto, estou habilitado para assegurar que há nesse romance algumas verdades que convém indicar.
É exato que Ana Campista e Matilde existiram, foram casadas, esposas infiéis encerradas por seus maridos, em castigo das suas infidelidades, no recolhimento do Parto.
É exato que viveu no tempo do vice-rei Luís de Vasconcelos o tal doido Bota-bicas, e é absolutamente autêntica a sua prisão, como é autêntica a quadrinha pela qual o vice-rei o mandou soltar.
É exato que alguns pensaram e propalaram ter sido Matilde que pusera fogo ao recolhimento. Sobre Ana Campista, porém, recaíram ainda mais veementes suspeitas da perpetração desse crime, porque a sua fuga pareceu a muitos seguro indício de culpa.
É ainda verdade que Ana Campista desapareceu na madrugada de 24 de agosto, aproveitando-se do tumulto e da confusão a que deu motivo o incêndio para efetuar uma fuga tão afortunada ou tão fatal, que não foi possível descobrir-se o retiro a que se acolheu, ou o fim que teve essa desgraçada, de quem não houve mais notícia, apesar de todas as indagações e diligências das autoridades.
É, enfim, da mais completa exatidão o belo feito daquela recolhida que ousou arrostar as chamas para salvar a imagem sagrada de N. S. do Parto.
Resume-se nisto o pouco que sei de mais positivo a respeito do incêndio do recolhimento e da capela do Parto. Contento-me com esse pouco, e deixo as glórias do romanesco e dos alinhos de imaginação ao meu amigo e informante, o padre velho.
V
Enquanto com energia e atividade se empregavam todos os meios para atalhar o incêndio que devorava a capela e o recolhimento de N. S. do Parto, o vice-rei Luís de Vasconcelos ocupava-se também das pobres recolhidas que não podiam ficar na rua, nem acolher-se onde o seu recato não estivesse plena e religiosamente defendido.
Em falta de melhor asilo, foram às recolhidas hospedar-se na casa dos terceiros franciscanos, que servia de hospital, como ainda hoje o é, e ali receberam elas todos os cuidados e socorros.
Matilde seguiu o destino de suas companheiras, que sem de todo absolvê-la da culpa daquele incêndio, acabaram por considerar Ana Campista a principal criminosa.
Ao romper do dia 24 de agosto, o incêndio tinha sido, enfim, dominado. Mas da capela e do recolhimento só restavam as paredes enegrecidas.
Luís de Vasconcelos observava triste, aos primeiros raios do sol, os restos fumegantes dos dois edifícios, quando, ao voltar os olhos, viu a dois passos o mestre Valentim.
– Está vendo, mestre? Perdemos em poucas horas o nossotrabalho de dois anos!
– Senhor vice-rei – disse o arquiteto friamente – a fazendareal, o culto religioso e a piedade perderam muito por certo, mas a arte...
– Que tem com isto a arte?
– Não perdeu coisa alguma.
Luís de Vasconcelos sorriu e tornou, logo depois:
– Perdôo-lhe esse egoísmo de artista. Mas o seu gênio vai so-frer um novo tormento.
– Como?
– Não temos dinheiro para levantar monumentos, e pois queainda nos ficaram as paredes da capela e do recolhimento, é preciso que as aproveitemos nas novas obras da reedificação.
– Nas novas obras...
– Que devem começar imediatamente debaixo da sua direção.
O mestre Valentim conhecia bem o homem que lhe falava, e
portanto, não replicou.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.