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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

"Isto sempre teve gênio!" dizia ele, ameigando­me o queixo. Chamava­me criaturinha má, sem coração; ameaçava­me com vingançazinhas, que se realizariam quando fôssemos casados. Tinha ditos maliciosos, palavras de sentido dúbio e olhares cheios de paixão. Eu estendia­me cada vez mais no banco, amolecida por um entorpecimento agradável; as pálpebras fechavam­se­me. Sentia vontade de ser menos severa com aquele pobre companheiro de infância; tanto que me não sobressaltei quando senti a sua mão empolgar­me a cintura.

"Como eu te amo! murmurou ele, com a boca muito perto do meu rosto. O seu hálito abrasava­me as faces.

"Não faça isto!", pedi, repelindo­o frouxamente.

Mas ele passou­me a outra mão na cintura e puxou­me para si.

Fiz ainda alguma resistência. Sentia­me, porém tão mole, e além disso sabia­me tanto ser abraçada naquela ocasião, que me deixei levar e caí sobre ele, com a cabeça desfalecida no seu ombro.

Paulo segurou­me o rosto e estonteou­me de beijos. Eram ardentes, vivos, repetidos, como os tiros de uma metralhadora.

E Violante calou­se, respirando forte, enquanto Gaspar, de olhos muito abertos, lhe acompanhava todos os movimentos.

— Depois desse fatal passeio, continuou ela ao fim de uma pausa, a situação mudou completamente. Paulo se tinha convertido em meu legítimo amante. Entretanto, escreviam­me daqui a respeito do inventário de meu marido, e eu respondia com evasivas às repetidas reclamações. Afinal, autorizada por Paulo, declarei abertamente que só voltaria a Montevidéu acompanhada por um cavalheiro com quem havia ajustado casamento.

A viagem seria dai a um mês; Paulo disse­me então que só se casaria na América Meridional, na primeira república em que pisássemos, ou no Brasil, e que então, logo depois no dia seguinte até, poderíamos levantar o vôo definitivo para cá. Concordei, não sem estranhar semelhantes exigências. Dentro de alguns dias partimos da Europa, depois de haver eu escrito aos meus amigos e conhecidos, participando­lhes que em breve me casaria no Brasil. E ainda nisso houve da parte de meu noivo alguma cousa que me fez desconfiar: Paulo exigiu que eu não declarasse o seu nome nas minhas participações...

— Oh! exclamou Gaspar, interessado vivamente pela história de Violante. E a senhora consentiu?

— Que remédio! explicou ela, eu estava em situação falsa: qualquer resistência podia provocar um rompimento, com o qual só eu tinha a perder. Assim, pensei na dependência em que me havia colocado, e concordei de cabeça baixa...

— Depois? perguntou Gaspar.

— Depois, partimos para o Brasil e, na véspera do dia em que haviamos de casar, Paulo desapareceu.

— Canalha!

— Fiz minhas malas, enxuguei minhas lágrimas, traguei em silêncio a minha cólera, e cá estou há cinco meses, sequiosa por efetuar meus planos de vingança!

— Ah! Tenciona tirar uma vingança de Paulo?...

— Decerto! Como sabiam que eu estava no Brasil e como me esperavam com impaciência, calculei o ridículo que me aguardava se me apresentasse ainda viúva, e tomei a resolução de mentir: disse que meu marido viria buscar­me para viajarmos, ou iria eu encontrar­me com ele fora de Montevidéu. O senhor é a única pessoa que sabe da verdade...

— Mas isso foi uma temeridade! exclamou Gaspar.

— Nem só uma temeridade, acrescentou Violante; como foi uma grande asneira: criando um marido imaginário, não me passou pela idéia que ia com isso dar uma nova direção ao inventário do primeiro...

— E agora?

— Agora, é que estava na situação que lhe acabei de pintar francamente, quando ontem li no jornal o seu nome na lista dos passageiros do Pacific Star. "Deve ser o filho do meu benfeitor!" disse eu comigo, e mais me convenci disso ao vê­lo à tarde no Prado com os seus companheiros de viagem, tal é a semelhança que existe entre o seu tipo e o de seu pai na idade em que me recolheu. Pois bem, imagine agora que hoje, ao voltar de um baile pela madrugada, os cavalos do meu carro se espantaram em certa rua; quis saber o que havia: o cocheiro disse­me que um homem estava estendido no chão e escapara de ser esmagado pelas rodas. O carro tinha parado, e ao lado das rodas estava com efeito um corpo inanimado. O cocheiro apeou­se, e com uma de suas lanternas iluminou­lhe o rosto. Soltei um grito — a fisionomia que eu tinha defronte dos olhos, era a do moço estrangeiro que encontrei no Prado, e justamente a mesma que se gravara há vinte anos em meu espírito, no dia em que morreu minha mãe; era a doce fisionomia do oficial brasileiro, que me recolhera da miséria. E, para poder o senhor julgar bem da impressão que recebi, basta ver este retrato...

E a oriental passou a Gaspar um de porte guerreiro, que tirou da algibeira.

— Oh! exclamou ele. Efetivamente é o retrato de meu pai há vinte anos! Quanto me pareço com ele! Tem toda a razão: isto é o seu retrato fardado de oficial.

(continua...)

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