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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Não, absolutamente não, respondeu Cirino. Verá o Senhor que, daqui a três dias, sua filha não tem mais nada.

—Malditas febres!... Quando não derrubam um cristão, o amofinam anos inteiros... Eu não quisera que minha filha ficasse esbranquiçada, nem feia .. As moças quando não são bonitas, é que estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões-doces... Que cabeça! . . .

Adiantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto à boca chamou com voz forte:

—Ó Tico!

Prolongado grito respondeu-lhe a certa distância

O mineiro pôs-se a assobiar com modulações à maneira dos índios.

Houve uns momentos de silencio; depois veio correndo o anão e, chegando-se para perto, mostrou por sinais que não ouvira bem o recado.

—Uns limões-doces, já!... Nocência está com sede...

Disparou o pequeno como uma seta, sumindo-se logo na densa escuridão que já se espessara entre as árvores do pomar.

CAPÍTULO VII

O NATURALISTA

A minha filosofia toda resume-se em opor a paciência as mil o uma contrariedades de que a vida está inçada.

(Hoffmann, O Reflexo Perdido).

Serena e quase luminosa corria a noite. No paro campo do céu cintilava, com iriante brilho, um sem-número de estrelas, projetando na larga fita da estrada do sertão, misteriosa e dúbia claridade.

Pelo caminhar dos astros havia de ser quase meia-noite; e, entretanto, a essa hora morta, em que só vagueiam à busca de pasto os animais bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pó, outro montado numa besta magra e já meio estafada.

Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida vara na mão rangendo diante de si lerdo e orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e malinhas, cobertas por um grande ligam

Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o selim, com as pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apesar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gázeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos muito louras. O seu traje era o comum em viagem: grandes botas, paletó de alpaca em extremo folgado, e chapéu-do-chile desabado. Trazia, entretanto, a tiracolo, umas quatro ou cinco caixinhas de lunetas ou quaisquer outros instrumentos especiais, e na mão segurava um pau fino e roliço, preso a uma sacola de fina gaze cor-de-rosa.

Homem de meia-idade, de fisionomia vulgar e balorda, era o camarada, e, pelos modos e impaciência com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito ao gênero de vida que exercia.

Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atrás o inábil recoveiro, em seguida fechando a marcha, o viajante encarrapitado na magra cavalgadura.

Houve momento em que, depois de algumas pautadas de incitamento, pareceu querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fora de hora recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.

Provocou a relutância, porem, uma chuva de verdadeiras cacetadas que ecoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.

—Burro do diabo! berrava ele. Mil raios te partam, bicho danado! Arrebenta de uma vez!... Vá para os infernos! Entrega a carcaça aos urubus!

Durante uns bons minutos, o cavaleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azêmola se desse afinal por convencida e avançasse, ou então estourasse.

—Juque, disse ele de repente com acento fortemente gutural e que denunciava a origem teutônica, se porretada chove assim no seu lombo, você gosta?

O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:

—Ora, Mochu, isto é um perverso sem-vergonha, que deve morrer debaixo do pau. Esta vida não me serve!...

—Mas, Juque, replicou o alemão com inalterável calma, quem sabe se a cangalha não esta ferindo a pobre criatura?

—Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este infame, este...

E, levantando o varapau, descarregou tal paulada no traseiro do animal que lhe fez soltar surdo gemido de dor.

—Juque, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente há pau caído ou pedra, que não deixe ele ir para diante?

—Pedra, Mochu, e pau na cabeça até rachá-la, é que precisa este ladrão...

—Vê, Juque, insistiu o alemão.

—Ora, Mochu... —Vê, sempre...

Saiu resmungando o camarada de detrás do borrego e deu a volta.

Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio da estrada para desviar os acompanhadores de Cirino.

(continua...)

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