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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Agora tudo isso acabou ; os pais mandão as filhas fazer sala aos mancebos que os visitão, e os bailes empurrão-as para os braços dos namorados fingidos : d'antes a difíiculdade consistia em aproveitar uma hora de conversação; hoje um moço e uma moça tratão de amor em casa, nos theatros e nos bailes, como dous agiotas que na praça do commercio conversão sobre os lucros prováveis das acções de uma empreza, em cujos resultados elles mesmos não acreditão.

— É demais !

— Qual! é de menos : já não se póde amar no Rio de Janeiro, repito ; a civilisação e o progresso espantarão o amor: a ausencia e a distancia, e portanto a saudade, desapparecerão com a estrada de ferro, que em duas horas põe em frente um do outro dous mal chamados amantes, que vivem separados a dez leguas : já não ha noite, nem sombra, nem pódet haver mysterio na cidade ; a illuminação a gaz dissipou de uma vez para sempre as trevas ; ninguém mais se lembra de escrever uma cartinha de amor, nem de mandar um recado disfarçado em algumas flores ; hoje quem não tem tempo de dizer em alta voz o que pretende á sua namorada, vai a um jornal, e manda publicar nos artigos a pedido tres ou quatro linhas desenxavidas com duas ou tres iniciaes em cima, e outras tantas em baixo, e está escripta a missiva de amor !... minha sobrinha, agora não ha mais amor, ha calculo ; não ha mais amantes, ha calculistas; não ha mais amadas, ha calculadas.

— Então, actualmente o amor...

— É uma operação de arithmetica...

— E o casamento...

— Un negocio ..

— Minha tia vive longe da sociedade moderna, e a julga com uma prevenção que a leva ao erro. Fuja d'este retiro a que se con-demnou, volte ao mundo elegante e bello, e mudará de opinião. Resolva-se , minha tia, resolva-se a freqüentar comigo o Cassino, o Club Fluminense, os bailes,

os theatros...

— Não... não...

— E porque ?...

A velha desatou uma gargalhada medonha, e respondeu :

— Porque não quero roubar-te os namorados que te requestão.

Por sua vez a moça rio, e rio tanto que D. Violante enfiou.

— De que te estás rindo, louquinha?...

— Da sua idéa, minha tia.

— Com franqueza, pensas então que seria impossivel que chegássemos a ser um dia rivaes?

— Com franqueza, penso.

— Quantos pretendentes tens, minha sobrinha?

— Tres.

— É pouco ; mas não importa : ficarás sem um só d'elles.

— E quem m'os ha de tomar ?

— Eu.

A moça tornou a rir, e mais ainda.

— Eu, repetio a velha.

— Vossa mercê, minha tia ?

— Eu mesma : vou freqüentar os teus bailes e os teus theatros, e hei-de ir a elles de touca e de oculos, como me estás vendo..

— E julga que será amada ?...

— Amada, não ; calculada sim.

— Que extravagancia, minha tia !

— Hão-de preferir-me a ti, vel-o-has.

— A mim ?... moça e bella ?...

— Duvidas ?...

— Não duvido, estou segura.

— Pois bem, apostemos !

— Apostar?...

— Sim; aposto que íicas sem um só dos teus apaixonados.

— Pois bem ; aposto.

— E aquella que perder

— Recolher--se-ha ao convento da Ajuda

— Coitadinha da freira!... exclamou a velha.

II.

Era uma noite de baile.

Não diremos onde e quando foi celebrada essa festa profana: devemos respeitar as conveniencias e esconder entre os véos do mysterio tudo quanto possa revelar os verdadeiros nomes das personagens que figurão na historia, cujo fio vamos seguindo.

Estavão no baile a nossa feia velha D. Violante e a nossa linda joven D. Clemencia, e, como satellites d'este bello planeta, achavão-se também no baile os tres pretendentes, que ella chamara os seus tres namorados, e que D. Violante reputava tres calculistas.

Tres namorados !...

Pois então que admira isso?... uma bella moça não vale menos do que uma pasta ministerial, e cada pasta ministerial tem mais de trinta pretendentes que a namorão com desespero.

E que mal vai em que uma moça seja requestada não só por tres, mas ainda por dez ou doze namorados?... a moral fica salva desde que ella não corresponda a mais de um, e é cousa assentada e facto reconhecido que não ha uma unica senhora que attenda aos cumprimentos apaixonados de mais de um, de cada vez.

Vamos á historia.

Mas esperem um pouco : lembra-nos agora que ainda não dissemos uma só palavra a respeito dos taes pretendentes de D. Clemência.

Cumpre-nos conhecel-os.

Um é o socio novo de uma casa commercial, que nascera e vivia por milagre do credito : este namorado chama-se Antônio.

O segundo é um Doutor, mocetão ainda, e com balda de estadista : chama-se Ambrosio. O terceiro é um elegante do passado, e do presente, e que ainda espera sêl-o no futuro ; chama-se Claudiano.

(continua...)

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