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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Logo hoje é que seu pai leva um camarada só. 

- Por que, mamãe? perguntou Linda. 

- O Pereira adoeceu, o outro, ninguém sabe onde anda. 

- Se mamãe quer, eu acompanho meu pai, disse Afonso fazendo menção de dirigir-se à cavalariça. Em um instante o alcançarei. 

- Não, não Afonso! acudiu vivamente a senhora, já se não viam os viajantes, ocultos pelo arvoredo. D. Ermelinda, antes de entrar, voltou-se para os filhos: 

- Vão passear! 

- E mamãe fica só? 

- Preciso descansar um pouco até a hora do almoço. 

- Sente alguma coisa, minha mamãe? 

- Nada, fadiga apenas. Até logo. 

- Quer ir, Afonso? 

- Se você quiser, Linda! 

- Vão; a manhã está bonita, insistiu a mãe. 

  D. Ermelinda por este meio tratava de afastar os filhos, cuja solicitude dispensava nesse momento, pela razão de os não afligir comunicando-lhes a tristeza e inquietação que a assaltava com dobrada força. 

  Apenas eles a deixaram, subiu apressadamente ao mirante para acompanhar com os olhos ao marido, até a volta que fazia o caminho no canto da tigüera e onde se perdia de todo a vista da casa. 

  Os viajantes, que já estavam a poucas braças dali, pararam de repente, e depois de pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com o incidente, D. Ermelinda deu graças a Deus daquela volta inesperada, que lhe restituía o marido, a quem por coisa alguma deixaria mais partir. 

  A angústia que sofrera naqueles poucos instantes, os pensamentos cruéis que lhe crivavam a alma nesse breve trato, não os sentira ela talvez em anos de sua vida. Suplicaria a seu marido que desistisse da viagem; e ele havia de atendê-la, ou então de arrastá-la abraçada a seus joelhos. 

  Aproximavam-se os viajantes; repassaram a cancela e afinal pararam em frente à casa onde Luís Galvão apeou rijo. 

- Que foi? Perguntou D. Ermelinda que descera do sótão a encontrá-lo.  

- Ora, respondeu o fazendeiro a rir, não sei onde pus as amostrar da Linda com a lista das encomendas. 

  Outra vez D. Ermelinda achou em si a força para reagir contra seus imaginários terrores. Esse coração de mãe sacrificava às inocentes alegrias da filha o seu sossego; é uma banalidade sublime, que se encontra por aí, a cada canto, e de que já ninguém se ocupa. 

  Correu Luís Galvão ao gabinete à busca dos objetos esquecidos; e enquanto a mulher ajudava-o de seu lado na pesquisa, abriu ele a medo o segredo da secretária e tirou um papel, que rápida e furtivamente escondeu no bolso. 

  Era este o motivo real da sua volta; o outro não passava de pretexto. Apenas teve Galvão seguro o papel em um bolso, que tirando à sorrelfa um pequeno embrulho do outro, exclamou: 

- Aqui está! 

- Aonde achou? 

- Dentro desta caixa de charutos. Só eu era capaz de achá-lo. Foi quando enchi a carteira. 

  Abraçando a mulher e beijando-a na face, de novo pôs-se o fazendeiro a caminho; e desta vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade, que se expandia momentos antes tão fresca em seu nobre semblante, e a alma franca e generosa sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que se acanhava. 

  O pequeno incidente da volta viera a toldar aquele sentimento que mais ou menos é infalível em todo o coração por magnânimo que seja, como da ânfora onde por muito tempo se guardou o vinho puro e generoso, há sempre lia no fundo.  

(continua...)

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