Por José de Alencar (1872)
Voltando o álbum com o movimento que lhe imprimira furtivamente o braço, Ricardo colocou-o fechado sobre a mesa e recolheu-se ao interior para mandar trazer a água. Tudo isto foi executado de modo que se observaram as delicadezas devidas a uma senhora.
Guida, apesar da curiosidade imensa que tinha de ver a aquarela, se afastara modestamente.
Molhou os lábios no copo d’água que lhe apresentou um dos cavaleiros; e lançando um último olhar à velha casa e às velhas árvores que a rodeavam, partiu a todo galope. Debalde os companheiros de passeio se esforçaram por alcançála.
No domingo seguinte, voltando Ricardo da “Vista Chinesa”, soltara as rédeas ao “Galgo” que esticava os músculos em um galope ligeiro.
De repente o animal retraiu as orelhas finas e vivas; tinha ouvido o tropel de outro animal, que vinha atrás a alguma distância, e também de galope. Pouco depois a estampa elegante de “Edgard” alongou-se pelo lado direito, e a Guida passou rapidamente voltando-se para ver se o cavaleiro a seguia.
O “Galgo” aceitando o desafio que “Edgard” lhe tinha lançado na passagem, juntara para arrojar-se avante como uma flecha; mas a mão firme do cavaleiro o sofreara, privando-o do prazer de dar uma lição ao fidalgo.
Era a quinta vez que Ricardo inesperadamente, por uma singular combinação do acaso, encontrava aquela moça. A Tijuca não é muito extensa em verdade; mas oferece vários passeios e tem caminhos desencontrados. Entretanto, em direções opostas, em horas diferentes, com intervalos desiguais, uma coincidência estranha aproximava os dois desconhecidos.
- Se eu fosse algum dos muitos apaixonados que há de ter esta moça, dizia Ricardo consigo e continuando o seu passeio, havia de empregar os maiores esforços para preparar estes encontros casuais; andaria de relógio na mão, espiando a hora em que ela costuma sair de casa, estudando o programa habitual de suas excursões, a direção que toma freqüentemente. E apesar de tudo isto, e das boas corridas que daria a cavalo, muitas vezes havia de perder o meu tempo e a minha paciência. Entretanto eu, que já não possuo relógio, que tenho apenas uma metade de cavalo, que saio de casa sem me lembrar de semelhante moça, não venho mais à Tijuca um só dia, que não a encontre uma e duas vezes. Caprichos da fortuna!
O moço conjeturou que a mestra e o criado, comitiva habitual da filha do milionário, tinham ficado atrás, e talvez a grande distância. A Guida naturalmente seria obrigada a esperá-los; e portanto teria ele um segundo encontro.
- Nada! pensou ele; e parou à sombra de uma árvore.
Mas a inglesa e o seu companheiro não apareciam; os minutos corriam; e Ricardo, surpreso, não sabia o que pensar, repugnando-lhe admitir a possibilidade de andar a moça sozinha por aqueles sítios desertos. Teria decorrido um quarto de hora quando ressoou do lado oposto o galope do cavalo.
- Querem ver que é ela que volta? Não há dúvida!
Era Guida com efeito; tendo passado o cavaleiro, estimulada pelo prazer vivo da equitação, arrependeu-se de haver deixado tão distantes os seus companheiros. Resolveu esperá-los. Naturalmente o moço não tardaria a passar; aquele encontro, num ermo, a incomodava; mas ela já o conhecia como um homem delicado; demais a mestra não podia estar longe.
A demora inquietou-a. Temeu que alguma coisa houvesse sucedido a Mrs. Trowshy, e que então se achasse realmente só naquela solidão. Já não era de Ricardo que se receava, mas do isolamento.
Por isso retrocedia de corrida a caminho percorrido.
Ricardo, apenas se persuadiu que era com efeito a moça, disparou a galope na direção da “Vista Chinesa”, a ver se escapava a novo encontro. Chegando à “Mesa”, viu Mrs. Trowshy sentada ao lado do Sr. Daniel conversando com o maior sossego.
O advogado passou como um raio, o que fez a inglesa fingir um desmaio, imaginando algum jovem salteador que a vinha raptar. O Sr. Daniel assegurou-lhe que os salteadores da Tijuca, chamados quilombolas, furtavam bananas, galinhas e outras coisas leves, mas não inglesas que pesassem dez quintais portugueses. Nesse dia Ricardo chegou tarde para o almoço; mas livrou-se de segundo encontro.
VI
Do lado que olha para o mar, a Serra da Tijuca apresenta um aspecto muito diferente. As encostas que descem para o Andaraí, como os vales e eminências que se encontram pelo dorso da montanha, têm a fisionomia risonha e pitoresca; são ondulações amenas ou recortes caprichosos, que deleitam a vista.
Na outra face, a natureza é agreste; dir-se-ia uma terra convulsa. O fogo subterrâneo ferveu nas entranhas da terra, e rasgando-lhe os flancos, arremessou aqui e ali pelas encostas aqueles enormes calhaus ou maciços de rocha, fragmentos da primeira carcaça do globo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.