Por José de Alencar (1875)
A onça que se agachara entre a ramagem, desenganada da espera, esgueirou-se pelo mato, e foi-se ao faro de alguma novilha desgarrada.
VII – Moirão
Quando buscava o pouso, tinha Arnaldo resolvido um encontro para o dia seguinte.
Vieram depois as namoradas recreações da fantasia, que o absorveram todo e acaletaramlhe o sono; mas sob êsse devaneio velava o propósito do ânimo deliberado, como sob a camada de flores viça a rija vegôntea do arvoredo.
Dormia, pois, o mancebo com aquele sono cativo dos homens de vontade, que se governam ainda mesmo quando sopitados no letargo dos sentidos, tão poderosa é a energia moral nessas organizações.
Arnaldo mais que nenhum homem possuia a admirável faculdade de reger o sono; no remanso do corpo o espírito sabia manter de vigia uma percepção íntima, que o advertia do menor rumor como da mais leve alteração, em tôrno de si.
A vida do deserto tinha apurado essa lucidez. Tantas vezes obrigado a pernoitar no meio dos perigos de toda a casta, entre as garras da morte que o assaltava sob várias formas, no pulo do jaguar como no bote da cascavel; o sertanejo aprendera essa arte prodigiosa de dormir acordado, quando era preciso.
Podia-se dizer dele que reproduzia o antigo mito grego e tinha o dom especial de repartirse em dois, para que um velasse, enquanto o outro se entregava ao repouso.
Foi ao primeiro vislumbre da alvorada que o sertanejo determinou acordar para ir em busca do Aleixo Vargas, que provavelmente não era outro senão o sujeito cujo rasto êle havia reconhecido no mato próximo à cabana do velho Jó.
Antes, porém, do momento marcado, despertou o rapaz subitamente, abalado por um ruído estranho, que soara no embastido da folhagem e que, a-pesar-de frágil, repercutira dentro dele como a vibração do grito da araponga no seio da floresta.
Achou-se de todo acordado a tempo ainda de escutar atentamente o mesmo som, duas vezes reproduzido uma após outra, e conhecer-lhe a origem. Acabavam de triscar um fuzil não mui distante e petiscar fogo do isqueiro.
Se alguma dúvida lhe restava, desvanecera-se com o cheiro de fumo, delator da primeira baforada do cachimbo, que se acabava de acender.
— Bom; cá está o meu homem. Já não preciso de ir-lhe ao rasto; tenho-o à mão.
A floresta ainda estava imersa no alto silêncio da modorra: apenas a fresca e sutil aragem que precede o primeiro dilúculo e é como o hálito da alvorada, frolava mansamente as franças das árvores. No azul do céu nenhum palor anunciava o raiar da luz.
Quedou-se o sertanejo com o ouvido atento aos menores rumores que vinham do lado onde pitavam. Nada lhe escapou, nem o roçar do corpo pela casca do pau e os chupos dados ao tubo do cachimbo, nem o grosso ressonar, que pouco depois substituiu aqueles primeiros ruídos.
Da sua escuta deduziu o sertanejo quanto lhe concinha. Ficou sabendo que o cachimbador era o próprio Aleixo Vargas, cujo assoprado pitar êle conhecia tanto como o ronco nasal do dorminhoco. Gizou o ponto da floresta em que se achava o sujeito, e com tal exatidão que lá iria de olhos fechados em linha reta. Finalmente firmou-se na certeza de que tinha seguro o homem, cujo sono espreitava dalí mesmo e sem mover-se.
Arnaldo conhecia todas as árvores da floresta, como conhece o vaqueiro todas as reses de sua fazenda, e o marujo as mínimas peças do aparelho de seu navio. Êsses habitantes da selva tinham para êle uma feição própria, que os distinguia; chamava-os a cada um por seu nome. Não admira, pois, que em resultado de sua observação êle dissesse para si:
— Está no angico da grota!
As barras vinham quebrando, como diz o povo, exprimindo com essa imagem as faixas de luz que listram o horizonte ao despontar da aurora, e que parecem as túnicas d’alva a desdobraremse pelo firmamento.
O sertanejo adiantou alguns passos pela copa da árvore, a jeito de ver lá na quebrada um casalinho, que aparecia em uma aberta no mato.
Precisamente nesse instante abriu-se a porta do rústico albergue, e saíu ao terreiro Justa, a quem logo cercou um bando de galinhas, frangos e pintos à gana do milho pilado que a roceira vascolejava em uma coité.
Acompanhava-a uma cabra que, deixando a mulher às voltas com a gente do poleiro, foi, como de razão, alí perto dar os bons dias aos moradores de um chiqueiro, que lhe responderam com um berredo dos mais alegres, no meio de cabriolas de toda espécie.
Demorou-se o rapaz um instante a olhar para a mãe, cujo vulto êle lobrigava ainda indeciso, movendo-se nas labutações caseiras, à luz frouxa do crepúsculo matutino. Uma vez, como a Justa em seu giro se voltasse para o lado da mata, estendeu o filho a mão direita aberta, murmurando com um sorriso:
— A bênção, mãe!
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.