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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Era unicamente na hora da prece que se reuniam um momento na esplanada, onde, quando o tempo estava bom, as damas vinham também fazer a sua oração da tarde. 

Quanto à família, esta conservava-se sempre retirada no interior da casa durante a semana; o domingo era consagrado ao repouso, à distração e à alegria; então deva-se às vezes um acontecimento extraordinário como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo rio. 

Já se vê pois a razão por que Álvaro tinha tantos desejos, como dizia o italiano, de chegar ao Paquequer em um sábado, e antes das seis horas; o moço sonhava com a aventura desses curtos instantes de contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe ofereceria talvez ocasião de arriscar uma palavra. 

Formado o grupo da família, a conversa travou-se entre D. Antônio de Mariz, Álvaro e D. Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças, tímidas, escutavam, e quase nunca se animavam a dizer uma palavra sem que se dirigissem diretamente a elas, o que rara vez sucedia. 

Álvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecília, da qual ele tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um pretexto que a chamasse à conversa. 

— Esquecia-me contar-vos, Sr. D. Antônio, disse ele aproveitando-se de uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem. 

— Qual? Vejamos, respondeu o fidalgo. 

— A coisa de quatro léguas daqui encontramos Peri. 

— Inda bem! disse Cecília; há dois dias que não sabemos noticias dele. 

— Nada mais simples, replicou o fidalgo; ele corre todo este sertão. 

— Sim! tornou Álvaro, mas o modo por que o encontramos é que não vos parecerá tão simples. 

— O que fazia então? 

— Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecília. 

— Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito. 

— Que tens, menina? perguntou D. Lauriana. 

— É que ele deve estar morto a esta hora, minha mãe. 

— Não se perde grande coisa, respondeu a senhora. 

— Mas eu serei a causa de sua morte! 

— Como assim, minha filha? disse D. Antônio. 

— Vede vós, meu pai, respondeu Cecília enxugando as lágrimas que lhe saltavam dos olhos; conversava quinta-feira com Isabel, que tem grande medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava ver uma viva!... 

— E Peri a foi buscar para satisfazer o teu desejo, replicou o fidalgo rindo. Não há que admirar. Outras tem ele feito. 

— Porém, meu pai, isto é coisa que se faça! A onça deve tê-lo morto. 

— Não vos assusteis, D. Cecília; ele saberá defender-se. 

— E vós, Sr. Álvaro, por que não o ajudastes a defender-se? disse a moça sentida. 

— Oh! se vísseis a raiva com que ficou por querermos atirar sobre o animal! 

E o moço contou parte da cena passada na floresta. 

— Não há dúvida, disse D. Antônio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecília quis fazer-lhe a vontade com risco de vida. É para mim uma das coisas mais admiráveis que tenho visto nesta terra, o caráter desse índio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua vida tem sido um só ato de abnegação e heroísmo. Crede-me, Álvaro, é um cavalheiro português no corpo de um selvagem! 

A conversa continuou; mas Cecília tinha ficado triste, não tomou mais parte nela. 

D. Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o moço conversaram até oito horas, em que o toque de uma campa no terreiro da casa veio anunciar a ceia. 

Enquanto os outros subiam os degraus da porta e entravam na habitação, Álvaro achou ocasião de trocar algumas palavras com Cecília. 

— Não me perguntais pelo que me ordenastes, D. Cecília? disse ele à meia voz. 

— Ah! sim! trouxestes todas as coisas que vos pedi? 

— Todas e mais... disse o moço balbuciando. 

— E mais o quê? perguntou Cecília. 

— E mais uma coisa que não pedistes. 

— Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado. 

— Nem por vos pertencer já? replicou ele timidamente. 

— Não entendo. É uma coisa que já me pertence, dizeis? 

— Sim; porque é uma lembrança vossa. 

— Nesse caso guardai-a, Sr. Álvaro, disse ela sorrindo, e guardai-a bem. 

E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava à varanda, e em presença dele recebeu de Álvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e que continha as suas encomendas. Estas consistiam em jóias, sedas, espiguilhas de linho, fitas, glacês, holandês, e um lindo par de pistolas primorosamente embutidas. 

Vendo essas armas, a moça soltou um suspiro abafado e murmurou consigo: 

— Meu pobre Peri! Talvez já não te sirvam nem para te defenderes. 

(continua...)

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