Por José de Alencar (1873)
D. Miquelina e a filha, sentadas ao lado direito da mesa, não tinham concluído a reza, em que o tabelião, como de costume, se despachava mais depressa que elas.
— Deus esteja nesta casa! disse a velha entrando.
— E os anjos a acompanhem, senhora mãe!
— Amém! disse Marta.
— Muito bem aparecida, Sr.ª Romana!
— Onde a gente é querida, sempre há de ser bem aparecida.
Não deixou o tabelião de reparar na visita da sogra àquelas horas canônicas do trabalho; mas foi quando notou o desempeno da velha, com a mantilha passada por baixo do braço direito, e a venta arregaçada, que o Sebastião Freire agourou mal daquela vinda tão fora de vila e termo.
Avisando como homem prudente em evitar a tormenta, fungou os restos da pitada, que estivera a rolar em bolota nos dedos, e foi-se esgueirando para ganhar o cartório. Mas atalhou-lhe o passo a matrona, com ar decidido de quem traz negócio de monta.
— Temos que falar; senhor meu genro.
— São horas de abrir o cartório; bem sabe, primeiro a obrigação, depois a devoção.
— Pode abrir seu cartório. Quem lhe Impede? Se é mesmo por ele que venho.
— Pelo meu cartório, Sr.ª Romana Mência!...
Soltando esta exclamação foi tal o pasmo do tabelião, que inteiriçando-se-lhe o vulto já tão esguio, tomou a figura de um ponto de admiração. O oficial das justiças d’El-Rei não compreendia que ingerência poderia ter uma mulher, fosse ela sua sogra, em tão grave assunto.
— Pelo cartório, ou cousa que lhe pertence, que eu desta barafunda não pesco.
— Por certo que não é para mulheres entenderem com o serviço da república; muito fazem elas já em tanger o fuso e a roca, que algumas nem de remendar a roupa da casa se lhe dão.
— Está bom, isso é lá com a Miquelina. Com ela se avenha, que eu em brigas de marido e mulher não me meto. Só lhe digo que não fui eu quem lha meti a casa, mas o senhor quem andou arrastando-lhe a asa, cerca de dois anos, como namorado sem ventura, até que afinal por diligências do D. Abade de São Bento...
— Ora pois deixemos estas histórias velhas, senhora, e vamos sem mais detença ao que a trouxe, que o tempo perdido não se recupera.
— Encontra-se o desejo com a boa vontade; nem para outra cousa estou eu aqui há um poder de tempo, e o senhor a dar à taramela.
— Sr.ª Romana, não se exceda. Isto não são modos de se falar a um tabelião do público, judicial e notas por El-Rei, que Deus guarde muitos e dilatadíssimos anos.
— Amém, e a todos nós para o servir e respeitar. Quer então saber a que vim?
O Sebastião Ferreira, temendo que uma resposta vocal provocasse novos ricochetes da velha, concentrou-se desta vez em um aceno compassado, abanando com a cabeça do alto a baixo.
— Pois eu lhe digo. O senhor há de precisar de um escrevente ou copista para o cartório.
— Não há tal... ia dizendo o Sebastião.
— E eu tenho um papafina para lhe dar. É o Ivo.
Espetou-se no cume da ponta da cabeça a ruiva cabeleira do tabelião; os olhos esbugalharamse; e a voz soçobrou-lhe no esôfago com a concussão que sofrera todo o indivíduo.
— O da Rosalina? gaguejou o homem.
— Esse mesmo, sem tirar nem pôr! retorquiu a matrona sem voltar pé atrás.
— Com a devida vênia, a senhora não está em seu juízo, minha sogra, desembuchou afinal o tabelião.
— Tão são tivesse o senhor o miolo, que já me está cheirando a mandioca puba!...
— Sabe acaso a senhora, o que seja um cartório? Pois aqui lho digo: é o depósito da paz e honra das famílias, em cujas notas se guardam os títulos de seus haveres, e os segredos de suas casas. Não será muito chamá-lo o tombo da cidade, pois que aí se vão lavrando e autuando todos os sucessos da república, ainda os menos importantes. E para um mister de tamanha ponderação, há de se admitir aí qualquer valdevinos...
— Apre lá! Não me esteja a estrelicar os ouvidos com suas cantigas. O rapaz há de dar um bom copista. Ande lá! Tem uma letra chibante!...
— Tire semelhante idéia da cabeça, senhora. E com sua licença!...
— Não se ponha comigo nestes pontos, Sr. Sebastião. Olhe, depois não se arrependa! intimou a velha, mostrando-lhe a unha do polegar, que espetava o indicador com frenesi.
Já a meio da porta o Sebastião parou perplexo. As palavras da sogra davam-lhe que pensar; e não era a primeira vez, que melhor avisado, ele tinha mudado de parecer diante daquela ameaça da velha.
Boquejavam pela cidade que a Romana Mência tinha uma bota de potro inteiriça, que fora de seu defunto marido, cheia de meias doblas e patacos em prata; a qual, segundo os noveleiros, estava enterrada por baixo do oratório da casa.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.