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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Helena – Fazer esperar é o nosso direito, Sr. Meneses!

Meneses – Quando se trata de amor, mas não quando se trata de um negócio.

Helena – Ah! É um negócio...

Luís – Sim, senhora...

Helena – Pois quando quiser...

Vieirinha – Já almoçaste, Helena?

Helena – Há pouco; mas o almoço ainda está na mesa.

Vieirinha – Com licença, meus senhores. (Luíse Helena conversam no sofá;

Meneses e Araújo recostados à janela)

CENA III

(Meneses, Araújo, Luís e Helena)

Araújo – Não me dirás que figura faz este Vieirinha no meio de tudo isto?

Meneses – A figura de um desses sagüis com que os moços se divertem. Neste mundo de mulheres, Araújo, existem duas espécies de homens, que eu classifico como animais de penas. Uns são os moços ricos e os velhos viciosos que se arruinam e estragam a sua fortuna para merecerem as graças dessas deusas pagãs; esses se depenam. Os outros são os que vivem das migalhas desse luxo, que comem e vestem à custa daquela prodigalidade; esses se empenam.

Araújo – O Vieirinha pertence a esta última classe.

Meneses – É o tipo mais perfeito. Em todas estas casas encontra-se uma variedade do gênero Vieirinha.

Araújo – Mas por que razão suportam elas esse animal? Será amor?

Meneses – Às vezes é; outras é simples orgulho e vaidade. Esta gente que profana tudo, que faz de tudo, dos sentimentos mais puros uma mercadoria, depois de tanto vender, quer também ter o gosto de comprar. Umas compram logo um marido; outras contentam-se em comprar um amante. É mais cômodo: deixa-se quando aborrece.

Araújo – É o que Helena fez com o Vieirinha?

Meneses – Justamente.

Meneses – E sai-lhe caro esse capricho?

Meneses – Sem dúvida; mas o dinheiro como vem, assim vai. Depois ela dá por bem empregado qualquer sacrifício. Não quer parecer velha.

Araújo – Mas quando ceamos juntos, aquela noite ao sair to teatro, me pareceu que o Pinheiro...

Meneses – Deixou-a; está apaixonado pela Carolina; e a Helena, segundo me disseram, o protege.

Araújo – Ah! De amante passou a confidente?

Meneses – É verdade. Tu ficas?

Araújo – Espero por Luís.

Meneses – Então, adeus.

Araújo – Por que não te demoras? Sairemos juntos.

Meneses – Não posso; tenho que fazer. Vou almoçar e depois escrever um artigo. Até a noite.

Araújo – Aonde?

Meneses – No Teatro Lírico. Não vais?

Araújo – É natural.

Meneses – Sr. Viana! Helena...

Luís – Já vai? Nós o acompanhamos.

Meneses – Depressa terminou a sua conversa!

Luís – É verdade; a senhora foi tão simples!

Meneses – Fico bastante satisfeito; é sinal de que a minha apresentação valeu um pouco.

Helena – O senhor sabe que ela vale sempre muito.

Araújo (a Luís) – Conseguiste?

Luís – Consegui tudo. O Meneses tem razão: o dinheiro venceu todas as dificuldades. Ao meio-dia, Carolina está aqui.

Araújo – Ao meio-dia?... São mais de onze...

Luís – Toma o carro. Ela está doente, mas a esperança de ver sua filha...

Araújo – E tu onde me esperas?

Luís – Eu vou dar uma volta, e dentro de meia hora voltarei.

Araújo – Até já, Meneses! (à Helena) Viva!

Luís – Vamos, Sr. Meneses.

Helena – Então ao meio-dia?

Luís – Aqui estarei.

CENA IV (Helena e Vieirinha)

Vieirinha – Almocei bem! O Meneses já foi?

Helena – Saiu agora mesmo.

Vieirinha – E os outros?

Helena – Também.

Vieirinha – Que fazer tu hoje?

Helena – Nada.

Vieirinha – Então não precisas de mim?

Helena – Que pergunta!

Vieirinha – Dá-me um charuto.

Helena – Não tenho.

Vieirinha – Estás hoje muito aborrecida.

Helena – E tu muito maçante.

Vieirinha – Não duvido; passei mal a noite. (Estende-se no sofá) Se quiseres conversar, acorda-me.

Helena – Não se deite, não senhor.

Vieirinha – Por quê?

Helena – Não são horas de dormir.

Vieirinha – Ora, quando se tem sono...

(continua...)

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