Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Quando Celina desapareceu no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, Jacó foi à janela onde estava Helena e apontando para a casa da moça, e depois para o “Purgatóriotrigueiro”, disse:
– Helena, ali há coisa que é preciso descobrir.
CAPÍTULO VI
VISITA DE GRATIDÃO
NO DIA seguinte, e por volta das quatro às cinco horas da tarde, estavam conversando na sala principal do “Céu cor-de-rosa” Mariana e seu velho pai.
No ângulo anterior e direito da sala, e a poucos passos de uma janela, achavase sentado em excelente poltrona o ancião, que era de aspecto simpático e respeitável; deveria ter já passado dos sessenta anos; tinha os cabelos totalmente brancos, a fronte alta, o rosto pálido, finas e delicadas as mãos, e era um pouco magro. Estava envolvido em um robe de chambre de chita, vestia calças brancas, e calçava chinelas de marroquim verde.
Defronte do velho, tendo a cabeça descansada graciosamente sobre a face palmar da mão que se estendia no peitoril da janela, Mariana estava olhando para ele, e entretinham-se ambos em discutir uma questão que parecia interessá-los muito.
Anacleto, com os olhos fitos em sua filha, a escutava observando-a, e como que receava dar inteiro crédito a suas palavras.
Posto que adorasse a Mariana com indizível extremo, o velho que a tinha estudado desde a infância, conhecia perfeitamente o caráter de sua filha, e mil vezes com um olhar firme e penetrante, lia no coração dela o contrário do que lhe ouvia dizer.
Mariana tinha todas as boas e más qualidades de uma senhora da alta classe. Nobre, altiva, e mesmo vaidosa, sabia, quando era conveniente, humilhar-se horas inteiras diante daqueles mesmos a quem detestava, para depois erguer-se veemente e orgulhosa. Ela misturava a audácia com a pusilanimidade, a mais inqualificável imprudência com um sangue frio que chegava a espantar. Sabia rir-se com os lábios quando chorava com o coração. Astuciosa, arrancava o segredo alheio e não confiava nunca o seu. Era capaz de rir-se à borda de um abismo, e de vir chorar numa sala de baile; e finalmente amava com ardor e odiava com extremo.
O semblante de Mariana sempre impassível, sempre o mesmo, dava a suas palavras uma força imensa de verdade, não deixando a ninguém ler-lhe no corar do rosto, no movimento dos lábios ou na expressão do olhar, o que se estava passando dentro dela: contudo Mariana tinha poucas vezes a virtude da franqueza. Podia enganar, sabia que o podia, e enganava.
Mas à força de viver com ela e de estudá-la, Anacleto era o único homem de quem não triunfava o sangue frio e a feminilidade de Mariana; o olhar do velho penetrava direito no coração da viúva; e diante de seu pai ela tremia e corava muitas vezes.
Conversavam ambos.
– Contudo, dizia o ancião, creio que ainda não é tempo de discutirmos sobre isto.
– Mas... não faz nenhum mal que desde já nos preparemos para quando chegar a hora.
– Sabes, Mariana, tornou sorrindo-se Anacleto: vai-me parecendo que estás mais adiantada neste negócio do que pretendes fazer-me crer.
– Não, meu pai, Salustiano ainda nada me disse; eu porém tenho meus olhos de mulher, e a experiência de trinta anos. Talvez que o tenhamos de ver bem cedo vir falar-nos.
– Pois deixá-lo vir.
– E que lhe diremos?...
– Dir-lhe-ei que volte no dia seguinte.
– E depois?... que faremos nós?...
– Nós?... provavelmente bem pouca coisa. Pela minha parte e quando ele tiver saído, chamarei Celina, expor-lhe-ei a questão; e se ela responder que não, diremos a Salustiano no dia seguinte: – não.
– Eu tenho bastante confiança na prudência da nossa “Bela Órfã”; mas não sei se seria justo deixar somente ao juízo de uma criança a solução de objeto tão grave.
– Querias pois, Mariana, tornou-lhe com seriedade Anacleto, que sem consultar a essa interessante órfã, dispuséssemos de sua mão, de seu futuro, de sua vida inteira?... suponhamos que ela não ama a Salustiano. Quererias tu que a sacrificássemos à paixão, aos caprichos desse homem!... oh! não, minha filha; os sacrifícios deste gênero são horríveis... eu os compreendo.
O velho olhou fixamente para Mariana, que sentiu passar por seu rosto uma onda de rubor; disfarçou, e depois de serenar, disse:
– Pois bem. E se acaso Celina disser que sim?...
– Nesse caso ela ouvirá minhas reflexões.
– E meu pai dirá...
– Que esse homem não me agrada; que seu único mérito, a só recomendação com que se nos mostra, é ter herdado uma riqueza enorme acumulada por seu pai, homem laborioso e honrado, dir-lhe-ei que há no rosto desse mancebo alguma coisa que transpira baixeza de sentimentos; que há no sorrir constante de seus lábios um sarcasmo eterno, ou incurável toleima, que o torna antipático e pesado a quem o pratica.
– E por conseqüência?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.