Por Camilo Castelo Branco (1869)
“Não nos iludamos, minha boa amiga. Pode ser que Deus aproximasse as nossas almas; pode ser; mas, se elas houverem de se encontrar e unir, há de ser na presença de quem as criou, - no céu. Neste mundo, é impossível; e, se fosse possível, a sociedade te obrigaria a chorar rios de lágrimas, e eu mesmo chegaria a sentir o tormento do remorso por ter assassinado as alegrias do teu destino, e destruído as modestas aspirações do meu. Desde que comecei a adorar o que em ti há divino, nem uma hora só entrou em minha alma o pensamento de te ver minha esposa. Era escusado que minha boa irmã estivesse sempre a medir a distância que nos separa. Bem viste que eu ta mostrei na segunda carta que te escrevi; e Deus sabe que eu chorava quando parecia rir da humildade de meu pai, que era um respeitável velho muito pobre, muito resignado, e muito feliz. A grande herança que ele me deixou foi a certeza de que há pobres felizes. Conheço que minha mocidade já não vai encaminhada pela trilha da de meu pai. Ele ignorava tudo, exceto os artigos da fé que atam as tristezas transitórias desta vida aos eternos contentamentos doutra: eu estudo há seis anos, penso e aflijo-me em terríveis dúvidas; e, se creio nalguma coisa santa, é porque comparo a felicidade de meu ignorante pai com as dolorosas inquietações do meu espírito. Mas a ti que importa isto, minha adorada amiga? Que impertinentes cartas te escrevi nestas noites tão compridas e veladas! E que pesar me fica se elas te enfadam, cuidando eu que tens lá também noites sem dormir, e amizade bastante para aceitar as confidências do pobre solitário!...”
D. Beatriz deixou cair o braço que sustinha o papel, desarmou o olho cansado, e perguntou: ― Ele é quem ditou isto?
― Isto quê, minha tia?
― Esta carta... Não creio que ele saiba dizer estas coisas... Não pode ser... Alguém lhe faz as cartas... Nada... O Francisco da Joana, com aquela cara de bruto que tem, não ideava assim umas idéias tão discretas. Aqui anda sancadilha armada à tua inocência, Ângela. Há velhaco escondido neste negócio!... Sabes o que é, tola?... O rapaz pensa que te prende com a confissão da sua humildade. Pouco mais ou menos aconteceu isso comigo, quando eu era da tua idade; e mais o meu pretendente era um doutor, filho do juiz de fora de Ponte. Também me veio com estas cantigas da desigualdade dos nossos nascimentos; e eu, a falar-te verdade, ia-me deixando levar, e não sei onde chegaria a minha loucura, se teu avô do pé p’rá mão não me escolhe marido conveniente. Casei, e daí a quinze dias já nem me lembrava o outro; só quando o vi passados anos, muito gordo e nédio, é que me lembrei do palavreado dele. (D. Beatriz contava o caso expedindo uns espirros de riso gosmento). Dizia o velhacório que o seu último dia seria aquele em que me visse ligada a outro coração; e, ainda na véspera de me casar, me fez verter grossas bagadas sobre o papel em que me escrevia que o sangue lhe saía em borbotões pela boca. Depois, quando o vi muito barrigudo, casado com outra barriguda de feitio e da casta dele, pegou-me uma vontade de rir, que ainda agora não posso ter mão que me não doam as ilhargas!...
E casquinava de modo a humorística velhinha que Ângela ria também do irresistível grotesco de sua tia recordando tão comicamente os seus virginais amores.
― Pois convence-te, menina – volveu a fidalga, revertendo a custo à seriedade do ato – que estás passando pelo que passei; mas este cá me quer parecer mais manhoso do que o outro. Tem mais lábia. Vem cá com estas coisas dos artigos da fé, que rezava o pai... Pudera não! Ou ele não fosse sacristão!... Aposto eu que o filho não sabe o Padre Nosso! Se o pai era feliz na sua baixa posição, porque não vai ele para o lugar do pai? Eu já disse ao Zé tendeiro que se deixasse de o mandar estudar no Porto; que o metesse num ofício. E ele quem lhe deu dinheiro para seguir os estudos de cirurgião, ou médico, ou lá do que é? O cunhado quanto tem quanto me deve. Emprestei-lhe um conto de réis, a juro há três anos, e paga-me em arroz e bacalhau. Nem daqui a vinte anos me tem pago. Ora não há! – continuou a credora do merceeiro aguçando a voz em iracundo falsete – se eu via minha sobrinha casada com um lapuz, que ainda há anos andava por aí a jogar a pedrada no cais! Onde foi ele aprender este palavreado!... Nada... isto é dalgum finório que esperava ganhar alguma coisa se caísse o raio na minha família. Não há de cair! – bradou ela batendo com os ossos do pulso no capacho de palha em que encruzara as pernas. – Não há de cair, enquanto eu for viva! Teu pai não te quer casar? Eu te casarei! Escolhe. Tens cinco pretendentes. Um da casa de Paço-vedro; outro da Passagem; outro de Aborim; outro de Aguião; outro de Azevedo; outro de... quem é o outro?
― Não sei, minha tia; nem quero saber, porque não caso com nenhum.
― Não casas com nenhum?! – assobiou a velha erguendo-se duas polegadas de salto acima do capacho.
― Não, minha senhora.
― Não?!... Vou escrever a teu pai! Ele te obrigará!
― Meu pai não quer que eu case com algum desses que a tia nomeou.
― Não? Mas eu vou dizer-lhe que há um pretendente mais moderno: o Francisco do sacristão. Pode ser que ele queira este. O negócio vai arranjar-se. Queres que lhe de parte do novo arranjo? Responde: isto é pedir de boca. Teu pai deve querer que o décimo nono senhor do Paço de Gondar seja neto do sacristão da Senhora da Agonia. Tem vergonha! Tem vergonha! – rebramiu a velha, erguendo-se de ímpeto, e bradando a Vitorina que lhe trouxesse mais chá de cidreira.
X
O POETA
D. Beatriz injuriara cruelmente Francisco José da Costa; mas não conseguira envenenar com a dúvida a coração de Ângela.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.