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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

— Mas como pode haver ladroeira... É impossível... As rodas são examinadas, suspensas do solo... Se houvesse qualquer fio, dava-se logo com ele — não acha?

— Mas então, “seu” Laje, como explica que o “gato” possa ficar “preso” três meses?

— E a sorte, objetou Laje.

— Qual sorte, fez o coronel furioso. É bandalheira; é eletricidade ... Ninguém me tira disso. Olhe: há vinte dias sigo a “borboleta”... Dava sempre, agora não dá mais... Vejo os jornais, a Joaninha, a Chapinha, compro o Palpite, a Mascote, a Ronda — todos dão a “borboleta”. Jogo... “borboleta” não dá. Faça o favor, doutor, veja aqui o Jornal do Brasil.

Desdobrou com cuidado a folha popular e apresentou-me o lugar em posição conveniente. Eu não cogitava que aquele assunto pudesse apaixonar tão intensamente o velho coronel que me parecia ser um homem rico; mesmo não entendia daquilo, mas embora admirado e fora da matéria, prestei-me graciosamente:

— Procure, disse ele, à esquerda o número 154... Viu?

— Sim senhor.

— Junte o “peru”... Não é “peru” que está pintado?

— É... Mas como?

— Junte o “peru”.

— Como?

— Ora, some o “peru”, grupo 20.

— Ahn! 174.

— Inverta.

— 471.

— Qual! nada! 714, borboleta — não é? E sem esperar a resposta continuou: Está aí, o Jornal dá, a Gazeta dá também e o bicho não sai há vinte dias... O doutor não joga?

— Não senhor.

— Por quê?

— Não gosto; depois, é proibido.

— Proibido! A polícia! exclamou Laje.

— Não é isso, fiz eu vexado daquela minha confissão. Temo perder dinheiro.

— Ah, bom! Diga isso! Pela polícia, não; ela vive com os bicheiros... não serve pra nada, fique certo.

— Eu pensava que...

— Qual! Para o que foi feita não serve. Serve para perseguir, executar vinganças, como eu já fui...

— O senhor! dissemos os dois a um só tempo.

— Exato! eu! exclamou um tanto exaltado.

— Como!

— Ora, como?! Uma cilada... Vinha no trem, e, num dado lugar, um sujeito sentou-se a meu lado e pôs o seu chapéu-de-sol junto à janela. Eu viajava desse lado. Saltou e levou o meu, deixando o dele. Quando chegamos, entrou pelo trem um magote de políciais, prenderam-me, revistaram-me e foram dar com o tal chapéu cheio de notas falsas de cem mil-réis.

— Foi preso?

— Preso, só? Fui esbordoado, metido numa enxovia, gastei dinheiro... O diabo! E sabe por que tudo isso?

— Não.

— Porque eu apoiava a oposição lá no meu município... É isto a polícia, no Brasil... Eu posso falar: sou brasileiro... A polícia no Brasil só serve para exercer vinganças, e mais nada.

—Por que não processou as autoridades, “seu” Laje? perguntei.

— Qual, menino! você é muito ingênuo. Crê na justiça, ora!

O Coronel Figueira continuou as suas queixas contra as loterias e eu aproveitei uma calma na conversa para me retirar. Conforme o meu hábito roceiro, dormia cedo. Dirigi-me logo para o quarto. A minha situação obcecava-me. Se não arranjasse o emprego, que faria? Vinha-me sempre essa pergunta, depois afigurava-se-me impossível a sua condicional. não era a carta de pessoa influente? Por que não havia de obter o emprego? Se até então eu não lograra falar ao deputado, a culpa era minha: não lhe indagara os costumes; não sabia ao certo a que horas se recolhia ou saia. Devia tê-lo feito com cuidado e não limitar-me a ir lá todos os dias, às mesmas horas, como estava fazendo há tantos dias. E logo concluí: amanhã, ao acordar me, posto-me à porta do hotel; ficarei lá o dia inteiro até vê-lo sair ou entrar, e então, cheio de decisão, abordá-lo-ei como o meu estado exige. Fiquei admirado de que um alvitre tão simples só me tivesse lembrado tantos dias depois. Deitado, tive uma imensa alegria, de quem acaba de descobrir a solução de um problema, que preocupa a atenção de quatro gerações de sábios. Dormi satisfeito, de um sono profundo e sem sonhos. Pela manhã, prescindi o café e pus-me a caminho.

O Hotel Términus estava ainda fechado. Esperei junto a um café aberto. Dai a instantes, aproximou-se da porta a carrocinha que vai ao mercado. Da boléia, saltou um rapazinho vivaz, simpático e ligeiro. Trocou umas palavras com o cocheiro e veio em direção ao café. Tomei-lhe os passos e perguntei pelo doutor Castro.

— O deputado?

— Sim! O deputado...

— Mora, não há dúvidas; mas quase nunca dorme no hotel. Lá é sua residência oficial; mas de fato onde ele mora, é na Rua dos Irmãos Araújos, 27, Vila Isabel.

— Ué! Por quê?

— O senhor é do Rio? fez, sem responder-me diretamente, o criado.

— Não.

— Está se vendo, senão não se admirava. O senhor sabe: esses homens têm seus arranjos e

não querem que ninguém saiba. É por isso. Agora, não vá dizer que eu... Veja lá!

(continua...)

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