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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

Dona Quinota retirou-se. Este Genelício era o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na família. A sua candidatura era favorecida por todos. Dona Maricota e o marido enchiam-no de festas. Empregado do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. Quando saía, remancheava, lavava três ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o diretor na porta. Acompanhava-o, conversava com ele sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um ministro, fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso; nos aniversários de nascimento, era um soneto que começava sempre por - “Salve” - e acabava também por - “Salve! Três vezes Salve!”

O modelo era sempre o mesmo; ele só mudava o nome do ministro e punha a data.

No dia seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto.

Em quatro anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.

Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio. Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos. No intuito de anunciar aos ministros e diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses.

Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e ele vivia na seção cercado do respeito de um gênio, um gênio do papelório e das informações. Acresce que Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar; e tantos títulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal Albernaz.

Fora da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico, mas que a convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. Um empregado modelo!

O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das “mãos” fazia-se um breve comentário ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo, bolo, melhoro, passo”. Feitas elas, jogava-se em silêncio; da sala, porém, vinha o ruído festivo das danças e das conversas.

- Olhem quem está aí!

- O Genelício, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?

Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo ele traía a profissão, os seus gostos e hábitos.

Era um escriturário.

- Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negócios.

- Vão bem? perguntou Florêncio.

- Quase garantido. O ministro prometeu... Não há nada, estou bem “cunhado”!

- Estimo muito, disse o general.

- Obrigado. Sabe de uma cousa, general?

- O que é?

- O Quaresma está doido.

- Mas... o quê? Quem foi que te disse?

- Aquele homem do violão. Já está na casa de saúde...

- Eu logo vi, disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.

- Mas não é só, general, acrescentou Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro. - É o que eu dizia, fez Albernaz.

- Quem é? perguntou Florêncio.

- Aquele vizinho, empregado do Arsenal; não conhece?

- Um baixo, de pince-nez?

- Este mesmo, confirmou Caldas.

- Nem se podia esperar outra cousa, disse o Doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura...

- Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.

- Telha de menos, disse Florêncio.

Genelício atalhou com autoridade:

- Ele não era formado, para que meter-se em livros?

- É verdade, fez Florêncio.

- Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Segismundo.

- Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?

- Decerto, disse Albernaz.

- Decerto, fez Caldas.

- Decerto, disse Segismundo.

Calaram-se um instante, e as atenções convergiram para o jogo.

- Já saíram todos os trunfos?

- Contasse, meu amigo.

Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala triunfantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano. Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz metálica, apurando muito os finais em “s”, começou:

A vida é uma comédia sem sentido, Uma história de sangue e de poeira Um deserto sem luz...

E o piano gemia.

IV

Desastrosas Conseqüências de um Requerimento

(continua...)

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