Por Lima Barreto (1905)
Os padres se ergueram. Quatro saíram e foram se postar em um compartimento mais alto. Os oito restantes ficaram no mesmo aposento, arredando um grande armário de junto da parede. Retirado o móvel, padre Saraiva introduziu uma talhadeira entre os lajedos, deixando ver um largo conduto inclinado, que começava no aposento a cavaleiro. Com um sistema misto de roldanas, cabos e plano inclinado, as grandes arcas desciam por ele, cada uma de per si. Mal ajuntavam na abertura, dois padres, nas alças da cabeceira, e dois nos pés, tal como as esquifes, removiam as arcazes para as salas próximas.
Todas estas precauções foram tomadas a fim de melhor guardar segredo. Para o aposento superior, as riquezas tinham sido, aos poucos, levadas por escravos e gente a soldada da companhia; e daí para baixo vinham dessa maneira.
Já tinham descido quinze caixas, quando a décima sexta, a das pedrarias, tropeçou no caminho e resistiu à tração.
Era a última, e a noite ia alta. O alampadário tinha a mesma luz e os candelabros haviam recebido novas velas.
A um só tempo os oito padres deram um único puxão no cabo de linho.
A caixa escorregou e, dado o impulso que tinha, veio cair no centro do salão, despedaçando-se.
Diamantes e rubis; coríndons e ametistas; pérolas, crisólitas, turquezas, turmalinas, ágatas; grandes, pequenas e miúdas, semeadas pelo lajedo, brilhavam, faiscando. Tons cambiantes, matizes do verde, do azul, do vermelho, misturavamse, caldeavam-se. Por baixo da película verde do brilho das esmeraldas havia coriscos azuis do cintilar das safiras. Rubros pingos de sangue vivo desmaiavam à fosca luz das pérolas. Um grande diamante da Índia, principescamente, como um sol, faiscava no centro.
E à indiferente luz da grande lâmpada de prata, febrilmente, uma a uma, os padres, agachados, ficaram a reunir aquelas riquezas dispersas...
Padre João conservava-se a distância, braços cruzados sobre o espaldar da cadeira, na humildade do seu arrependimento; o seu olhar, intenso e vivo, fixava-se nas pedrarias espalhadas pelo lajedo.
Em seu espírito uma íntima revolta flamejava; o marquês relembrava o seu passado, cheio de nobres e cavalheirescas ações; jamais ele se curvara a uma imposição ou a uma ameaça.
Fora sempre um forte nas lutas de política como nas do coração.
Entretanto agora se haviam dobrado os seus joelhos numa súplica e os seus lábios afeitos ao mando tinham murmurado frases de perdão!
E tudo isso por quê?
Um amor intenso, fatal, dominador, obcecava-lhe a razão, apagara-lhe do peito a chama vívida de um orgulho indomado.
A expulsão seria a perda do poderio, da paz monástica do colégio, seria talvez a perda de sua vida; nada disso, porém, era de força a abater o ânimo do clérigo.
O que o obrigara àquela humilhação, à quebra de vaidade de homem, fora o amor, unicamente o amor; fora o receio de perder, com a roupeta de jesuíta, a sua Alda, a sua querida Alda.
A Companhia era forte, era quase onipotente.
Expulso dela, vagaria solitário pelo mundo, e aquela por quem abandonara o mundo, entre as paredes do claustro do Castelo, seria pasto da lubricidade dos outros.
Padre João fizera bem; a vingança viria depois, cedo ou tarde.
E com os braços apoiados no espaldar da velha curul, o jesuíta fixava as pedrarias esparsas, com um sorriso diabólico a brincar-lhe nos lábios.
(Continua)
Correio da Manhã - sábado, 20 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO
Os Tesouros dos Jesuítas
No Morro do Castelo
A Descoberta de uma Nova Galeria
Ontem, à uma hora da madrugada, os trabalhadores sob a direção do hábil engenheiro Pedro Dutra, encarregados do arrasamento do morro do Castelo, descobriram uma nova galeria, que parece ser a mais importante das três até agora encontradas.
Segundo as informações fidedignas que em dias consecutivos publicamos, deve ser esta a galeria mestra, conduzindo à vasta sala subterrânea, onde, segundo rezam a crônica e a lenda, estão encerrados os tesouros dos jesuítas.
Foram encontrados no meio do barro lamacento restos carcomidos pela ferrugem de instrumentos de suplício, pregos, correntes, polés, gargalheiras, etc.
O novo subterrâneo, ao que parece, não é, como os precedentes, aberto simplesmente a ponteiro no moledo; a sua construção foi mais cuidada e obedeceu aos preceitos da arte de construir compatíveis com os progressos da época.
Abre-se a porta que para ele dá ingresso ao pé de uma velha escada do Seminário, agora destruída por via do arrasamento do secular edifício. Uma enorme pedra de cantaria obstruía-lhe a entrada; removida esta, penetraram no subterrâneo o engenheiro Dutra e alguns operários de confiança e logo ficou patente a importância da descoberta.
Pessoa que assistiu a este trabalho garantiu-nos ter sido encontrado um pequeno cofre de madeira cintado de ferro, que de pronto chamou a atenção do Dr. Dutra o qual resolveu sem demora comunicar ao Dr. Frontin o interessante achado, guardando sobre o caso o mais completo sigilo.
Pela leveza do cofre, parece não conter ele metal, senão documentos da Ordem de Jesus.
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.