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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

O sangue escorria grosso, denegrido, empoçando-se na terra e os ossos appareciam em estilhas atravez da carne triturada.

Soldados, curiosos do espectaculo, agruparam-se diante da Cruz. Como o ladrão continuasse a rugir, debatendo-se nos estrebucbos da agonia, o carrasco amiudou os golpes, macerando-lhe as pernas retalhadas, e a barra, de espaço a espaço, batia surdamente nas carnes esmagadas fazendo saltar esquirolas.

Por fim, cerrando os olhos, conservando a boca escancellada e retorcida, o desgraçado expirou.

Dimas pouco havia resistido.

Os dois carrascos, limpando o suor da fronte, já se dirigiam para a cruz de Christo quando viram, immovel. os olhos estanques, as mãos abandonadas ao collo, Maria sentada junto ao madeiro.

— Quem é ? perguntou um d'elles.

— É a mãi do rabbi, disse o centurião, de nome Longuinhos.

— É preciso arredá-la.

— Que ides fazer ? Não vedes que está morto? E, para provar o que affirmava, levantando a lança abriu urna ferida no flanco de Jesus. D'ella escorrendo sangue e agua., uma gotta foi, maravilhosamente, aos olhos do soldado que logo se rojou em terra cheio de arrependimento, chorando, convertido pelo remorso, adorando aquelle cadaver em que residira o espirito divino.

Maria estava insensível—nem as suas roxas palpebras batiam. Julgando-a morta, Magdalena ajoelhou-se-lhe aos pés, chamou-a. A Virgem não fez o mais leve movimento — mas o coração batia.

Ó miscro coração ! Todas as forças da infeliz estavam nelle concentradas, em torno da magua. Toda a vida refugiara-se naquelle santuario do soffrimento : os soluços, as lagrimas, as deprecações, tudo lá estava, não havia passagem para o menor allivio.

Os que choram dispersam tormentos, os soluços arejam o coração. Maria tinha a Dôr trancada e ali estava apparentemente insensivel.

Era a superfície enganadora, a parede de um carcere dentro do qual o carrasco, lentamente, abafando todos os gritos, suppliciasse a victima.

Nem quando José e Nicodemos retiraram o cadaver da cruz a inieliz ponde soltar as lagrimas : olhava immovel e muda. E vagarosa, amparada por Magdalena e João, desceu a montanha seguindo o corpo amado, tão impassivel, d’olhos tão enxutos que só os que a levavam sabiam que ia ali a Dôr, a immensa, a inenarravel Dôr, tão grande que não cabia em queixas, em lagrimas, em soluços.

VII

Jesus encerrado no sepulcro

Era num horto, entre rosaes.

O silencio e a amenidade tornavam-no o ponto favorito dos passaros que por elle andavam esvoaçando de ramo em ramo ou pelo saibro, nos relvedos, á beira do rego por onde sempre discorria um fio d'agua.

Sycomoros robustos alargavam sombras repousadas e, contrastando com a belleza e com a fartura do sitio, uma rocha, escalvada e negra, toda cercada de cardos, avultava monstruosa e melancolica. No flanco fora cavado um jazigo, que pertencia a José de Arimathéa. Alli fôra deposto o cadáver do Martyr.

O perfume das essências funeraes embalsamava o ambiente : aroma triste, de morte, que commovia.

Caiados, os discipulos, que haviam acompanhado o corpo áquelle repouso, rodeavam a rocha, encostados aos troncos ou diante do sepulcro, ajoelhados, chorando.

A noite descia calmae estrelada. Cantavam cigarras e longe, como a Paschoa estava proxima, estrugiam vozes festivas, resoavam cymbalos.

Maria, sempre amparada pela Magdalena, quedara contemplativa ante o bruto rochedo. As lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, os labios entreabriam-se-lhe deixando passar suspiros.

De repente, tocando a pedra, apalpando-a, murmurou :

— Tão fria!

— Que sentis, Senhora? perguntou João adiantando-se sollicito.

E ella, de novo, murmurou :

— Tão fria! E dizer que é tudo quanto me resta ! Toda a minha fortuna aqui jaz. Eu era tão venturosa que meus passos felizes abençoavam a terra; a minha alegria era uma claridade que alumiava. Nunca invejei! Que podia eu desejar mais neste mundo se o tinha, a Elle, meu Filho ? Contemplando-o, recordava todo o passado e era sobre a sua cabeça que meus olhos viam o futuro. Meu horisonte !

Quando o via vir pelos caminhos claros, dobrado de fadiga, o meu coração ficava tão contente como ficam as flores, depois de um dia de sol, quando o ar refresca annunciando o orvalho.

A sua. voz era a musica que embalava minh'alma e chamar-lhe Filho era para mim felicidade tamanha que, ainda na sua ausência, esse nome era o brinquedo dos meus labios. Ai!

de mim... A minha vida encravou-se na pedra!

E eu hei de andar sósinha, e hei de ouvir a outras rnãis aquillo que me não é dado dizer. Filho ! Filho ! Filho !

Este nome devia desapparccer da terra; para mim não existe, é uma palavra que findou, uma alegria que se extinguiu. Não sahirei, ninguem mais me verá.

(continua...)

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