Por Aluísio Azevedo (1887)
Aquilo era um abuso que orçava pela petulância! era um desrespeito ao que ele determinara dentro de sua casa e com relação à sua própria filha! Por mais de uma vez havia declarado já que a Sra. D. Madalena não podia ir à igreja e muito menos demorar-se aí horas e horas; e fazia-se justamente o contrário! Se D. Camila não podia passar sem isso, que fosse sozinha! Podia lá ficar o tempo que quisesse, fartar-se de sermões e rezas, deliciar-se com aquela bela atmosfera impregnada de incenso e bodum de negros! Que fosse; ninguém se privava de ir, mas, com um milhão de raios! não arrastasse consigo uma pobre doente para pô-la naquele estado! Era muito bonito, não tinha dúvida! Ele em casa a desfazer-se com cuidados de meses e meses para minorar os sofrimentos da filha, a fazer sacrifícios para a ver boa; e a besta da irmã a destruir tudo isso em poucas horas! Não! não tinha jeito! A continuarem as coisas por aquele modo, ele ver-se-ia obrigado a tomar sérias providências contra semelhante abuso! Se D. Camila não se queria conformar com o que ditava o bom senso, que tivesse paciência, mas voltaria por uma vez para o convento!
E o que mais o irritava era o modo fraudulento porque tudo aquilo se fazia; eram as confidências secretas, as combinações em voz misteriosa, a espécie de conspiração que havia contra ele, entre Magdá e a velha. Enganavam-no: saiam para "dar um passeio pela praia", e agora ficava descoberto o que eram os tais passeios! Roubavam-lhe até o amor e a confiança de sua filha! — Dantes, Magdá não dava um passo, nem mesmo pensava em fazer fosse o que fosse, sem primeiro consultá-lo, ouvi-lo; e agora — evitava-o; falava-lhe em meias palavras; parecia ter segredos inconfessáveis! Dissimulava!
— Tudo isso é da moléstia! Explicou o Dr. Lobão, cujas visitas à casa do Conselheiro rareavam ultimamente, porque o feroz médico vivia muito preocupado com o estabelecimento de uma casa de saúde, que acabava de montar fora da cidade. Mas o pobre pai não se consolava com a explicação do doutor e sofria cada vez mais por amor da sua estremecida enferma. Magdá, com efeito, estava agora toda cheia de dissimulações e reservas; parecia viver só exclusivamente para uma idéia secreta, um ideal muito seu, que ela colocava acima de tudo e de todos. Faziase muito manhosa, muito amiga de sutilezas, de disfarce, empenhando-se em esconder as suas mais simples e justificáveis intenções e fazendo acreditar que existiam outras de grande responsabilidade. Os passeios clandestinos que continuava a dar coma tia, cegando a vigilância do Conselheiro, para estar algum tempo na igreja, tinham para ela um irresistível encanto de fruto proibido, e a preocupação em esconde-los constituía o melhor interesse de sua existência.
As duas saíam em passo de quem vai espairecer um pouco pelas imediações de casa, mas a certa distância aceleravam a marcha, apressavam-se, conversando em segredo em segredo os seus assuntos religiosos. A rapariga, à medida que se aproximava do templo, ia ficando excitada, palpitante, olhando repetidas vezes para trás, como se receiasse que a seguissem. Afinal chegava, ofegante, com o coração na garganta e, depois de verificar que não erra seguida por ninguém, entrava na igreja, trêmula e assustadiça, como se entrasse no latíbulo de um amante. E aquele silêncio das naves; aquela meia sombra em que rebrilhavam os ouros dos altares; aquela solidão compungida; o ar fresco dos lugares de teto muito alto; tudo isso lhe punha no corpo um meigo quebranto de volúpia sobressaltada.
Ajoelhava sempre num ponto certo; tinha já a sua imagem predileta, era um grupo de Mater Dolorosa, de tamanho natural, com o Cristo deitado ao colo, morto, todo nu, os braços pendentes, o sangue a escorrer-lhe pelas faces e pela ebúrnea rigidez do corpo. Adorava este Cristo, amava-o, preferia-o, tinha íntimas predileções por ele; achava-o mais formoso do que todas as outras imagens sagradas. Embriagava-se com ver-lhe aquele rosto muito pálido, aqueles olhos de pálpebras mal fechados, adormecidos no negrume dos martírios, aqueles lábios roxos, imóveis, aqueles longos cabelos que lhe caíam pelos ombro, aquela barba nazarena que parecia ter bebido de cada mulher da terra uma lágrima de amor.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.