Por Aluísio Azevedo (1890)
Remordia-o principalmente o remorso no relativo à Branca e ao abandono em que a deixara. Nem mesmo podia compreender como ele, o homem impassível e calmo, já afeito às vicissitudes da sorte e bem afamado pela imperturbável presença de espírito, que conservava durante os transes mais arriscados da vida, se tinha tornado quase doudo, irrefletido e imprevidente.
A nada concluíam entretanto as suas primeiras pesquisas. Lá, na rua do Conde, a casa de Branca conservava-se impenetrável e quieta, com essa lúgubre fisionomia dos prédios misteriosos que foram o teatro de um crime. E, pela vizinhança, diziam-na apenas malassombrada, percorrida durante a noite por fantasmas alvadios de almas penadas, que vinham gemer a sua dor na encenação espetral das crendices populares.
Ninguém sabia de mais nada, e ninguém conseguira esbater luz sobre a treva apavorante daquele crime.
Mistério, mistério!
De Branca nem se ouvia falar. Talvez que ela tivesse remontado para o céu na compostura angelical de suas purezas.
E o Satanás debatia-se, cego e louco, apaixonado e fúnebre, na grande noite das idéias. Lembrou-se, entretanto, de d. Bias. Fora ele quem viera chamá-lo à bodega do Trancoso. E o magro fidalgo das Espanhas bem devia conhecer alguma cousa desse drama sanguinolento e inexplicável. Se ele nada pudesse dizer sobre a sorte de Branca, relataria pelo menos o princípio dessa luta a que assistira, e que prostrara em terra o cadáver de Paulo de Andrade.
E o Satanás dirigiu-se para a tasca da rua do Piolho. D. Bias lá estava.
Ninguém lhe dissera sobre a chegada do príncipe e sua comitiva. E ele supunha-se muito seguro, longe da espada de Pallingrini.
Ria a bom folgar.
A Domitila, recusando-se embora a pagar-lhe imediatamente os mil cruzados prometidos, recheava-lhe a bolsa, de constante, e permitia-lhe algumas diabruras, que o arredassem por momento da vigilância sobre a prisão de Branca.
E d. Bias fazia-se agora de pagador, e falava alto e fanfarronava à vontade entre aquela gente que lhe ia escorropichando os pichéis.
Fez-se branco, pois, trêmulo como um esqueleto de museu agitado pelo vento, quando o Satanás bateu-lhe ao ombro fortemente.
Mas recuperou logo a presença de espírito. Estava diante do inimigo. E se lhe faltava a coragem de desembainhar a nunca desembainhada durindana, compreendia a necessidade de esgrimir a mentira - a única arma que ele sabia manejar.
- Bem hajas pelo teu regresso! disse. Tu desapareceste de repente, e eu tinha, entretanto,importantes comunicações a fazer.
- E eu ando à procura dessas comunicações, fez o Satanás com a voz soturna, sentando-se do outro lado da mesa e esvaziando um copo que ali estava.
- Então, pergunta. As minhas idéias, assim, se concatenarão melhor e com mais vantagens parati.
- Pois bem! O que é feito de Branca?
- Que Branca?
- A minha filha! Aquela moça loura que desapareceu bruscamente depois do crime da rua doConde.
- Era tua filha!
- Sim.
- Pois não sei! afirmou d. Bias resolutamente.
Descobrindo que a sua encarcerada era filha do Satanás, o magro fantasma de d. Quixote teve ímpetos de revelar-lhe tudo. Perpassou-lhe no cérebro a idéia de ajoelhar-se, de rojar-se ao chão, de dizer ao escultor:
- Tua filha! Sou eu quem a tem prisioneira. Mas perdoa-me. Eu, só eu te a posso restituir. Vemcomigo. Vem buscá-la. Mas perdoa-me. Conserva-me a vida. E dá-me os mil cruzados que a Domitila me prometeu.
Mas d. Bias amava Branca. A meiga e triste filha do Satanás deixava que ele a abraçasse. Sorria numa alegria infantil de louca. E muito baixinho dizia-lhe ao ouvido uma suave cantilena de amores: - Paulo! meu Paulo!
Por isso ele afirmou:
- Não sei.
O Satanás não lhe permitiria com certeza o prolongamento desses idílios de prisão. E d. Bias amava Branca.
Também o outro não insistiu.
Não eram essas propriamente as revelações que esperava. Perguntara por perguntar, para dar saída a essa idéia que o obsedava, que lhe fazia o mais forte e o mais insistente das preocupações. E, sem mais referir-se ao caso, continuou o inquérito relativamente aos pródromos do drama.
- Como soubeste que lá em cima, na minha casa, havia gente a se matar?
- Eu te conto, Satanás. Eu conto.
- E toma tento em ti. Fala a verdade. Por que se não...
E um grande murro sobre a mesa completou-lhe o pensamento. D. Bias começou assim:
- Naquela noite, sabia de uns amores misteriosos, que não te relatarei nem por quinhentos milhões de diabos, nem que venha o inferno todo inteiro em guerra aberta contra mim, porque sou fidalgo das Espanhas e nunca meus lábios traíram o segredo da reputação de uma mulher.
O Satanás olhou-o muito sério, com a força violenta do seu olhar de fogo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.