Por Aluísio Azevedo (1895)
E as castas propensões do Coruja, os gostos imaculados que dormiam a sono solto dentro dele, tudo isso acordou alegremente aos primeiros rumores da floresta e as primeiras irradiações da aurora como um bando de pássaros quando vai amanhecendo. Nunca se julgou assim feliz. Todas aquelas, vozes da natureza. todo aquele aspecto tranqüilo das matas e das montanhas, tudo o fascinava secretamente, como se ele tivera nascido ali, entre aquelas coisas tão calmas, tão boas, tão comunicativas.
Os currais, os trabalhos agrícolas, o gado grosso e o gado miúdo, a criação dos animais domésticos, a cultura dos legumes e hortaliças, tudo isso tinha para ele um encanto muito particular e muito suave.
- Então? que tal achas isto aqui? perguntou-lhe Teobaldo, depois de mostrar ao amigo as benfeitorias da fazenda.
- Tudo muito bom, respondeu ele.
- E o velho? Que tal!
- Bom, muito bom.
- E Santa?
- Uma Santa.
- E a tia Gemi?
- Não é má.
- Um pouquinho resingueira, não e verdade? Mas não faças caso, que ela se chegará as boas. Olha! se a quiseres agradar, faze-te devoto; reza-lhe dois padre-nossos e tê-la-ás conquistado.
E mudando logo de tom;
- Depois do almoço temos um passeio com o velho. Vais ver o que é bom! Sabes montar a cavalo?
- Não, mas aprendo. Onde é o passeio?
- À fazenda, do Hipólito. Não é longe.
- Que Hípólito?
- Um vizinho nosso, amigo do velho e pretendente à mão da tia Gemi.
- Ah!
- Vem comigo à estrebaria.
Defronte dos animais, Teobaldo chamou a atenção do amigo para um belo cavalo alazão, meio sangue, que o pai lhe havia comprado ainda o ano passado.
- Eu preferia aquele burro... disse o Coruja, depois de examinar minuciosamente as bestas.
- Quê? Pois preferes o jumento àquele belo alazão?...
- Decerto.
- Mas, por quê?
- Não sei: gosto mais do burro que do cavalo.
- Que gosto! Antes andar a pé.
E acrescentou ainda apontando para o alazão:
- Olha só para aquilo! É um animal nobre! Parece que tem consciência do seu valor! Terminado o almoço e vestido o Coruja pelo melhor que se pôde arranjar, o barão, os dois meninos e o velho Caetano abandonaram a casa e encaminharam-se para a estrebaria.
- Sabes, papai? O André prefere ir no burro.
- Porque não é cavaleiro. O burro com efeito é muito menos perigoso para ele. Anda com isso, ó Caetano.
Prontos os animais, o velho criado ajudou Coruja a cavalgar o burro.
- Não tenha medo! gritou-lhe, a segurar a brida. Esta besta é mais mansa do que uma pomba!
André, todo vergado sobre o peito e a segurar as rédeas com ambas as mãos, não conseguia endireitar-se na sela do animal, por mais que o amigo lhe gritasse.
- Espicha as pernas, rapaz! Levanta a cabeça! Pareces um macaco!
O barão e o filho, uma vez montados, meteram entre os seus cavalos o jumento em que ia o Coruja, e puseram-se a caminho, seguidos a certa distância pelo criado, cuja libré dava à modesta cavalgata um ligeiro colorido de aristocracia.
Os primeiros minutos do passeio foram todos gastos com André, que, diga-se a verdade, fazia o possível para bem aproveitar as lições.
- Assim! assim! gritou-lhe Teobaldo, metendo as esporas no animal; afrouxa um pouco mais a rédea e mete-lhe o chicote com vontade! Não tenhas medo!
Coruja foi pôr em prática esta ordem, mas com tal precipitação o fez que o burro se espantou e, dando um salto, cuspiu-o por terra.
- Ó diabo! exclamou Emílio, fazendo parar o seu cavalo.
- Ficaste magoado? perguntou Teobaldo ao amigo.
- Foi nada! disse o Coruja, erguendo-se a segurar o asno pela rédea, e, antes que lhe pusessem embargos, tomou o estribo, galgou de um pulo a sela e, tocando o animal com certa energia, gritou aos companheiros:
- Vamos adiante!
E às quatro da tarde, sem nenhum outro incidente desagradável, voltavam à fazenda, trazendo consigo o tal Hipólito, que parecia embirrar com o Coruja ainda mais do que a própria noiva.
Mas com quem não embirraria aquele demônio de barbas pretas e cabelo ruivo, eterno maldizente, capaz de encontrar pontos de censura na vida de Santa Maria e nas de S. José?
O barão suportava-o, tão somente para não prejudicar a trintona cunhada, que arriscavase a ficar solteira se lhe escapasse ocasião de ter marido. Hipólito era já um bom arranjo, tinha algum dinheiro e prometia ir muito mais longe com o seu sistema de economia que orçava sensivelmente pela avareza.
A política era talvez a sua paixão dominante; ele, porém, a disfarçava quanto possível e não se metia com os partidos, receoso de gastar alguma coisa. Aparecia freqüentemente na fazenda de Emílio e estava sempre a criticar, em segredo com a noiva, a educação que davam a Teobaldo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.