Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Mas enfim, as portas começaram a ser despedaçadas, penetraram guardas e homens dedicados no recolhimento. As recolhidas arrojaram-se espantadas para a rua e Matilde foi levada nos braços de dois soldados para fora do edifício inflamado.
Entre as reclusas, uma, porém, houve que se mostrou intrépida e capaz de afrontar a morte.
O fogo abrasava a igreja toda. A reclusa heróica lembrou-se das imagens santas, e, esquecida de si própria, arrojou-se à nave coberta e cercada de flamas. Uma nuvem de fumo escureceu-lhe a vista. Mas nem assim recuou, e, voando por entre as chamas, desaparecendo na fumaça, correu ao altar-mor, tomou em seus braços a imagem de N. S. do Parto, e, sem dúvida defendida por tão sagrado escudo, apareceu sã e salva no meio da multidão, que a vitoriou entusiasmada.
O fogo consumiu todas as outras imagens.
No indizível tumulto e na desordem imensa a que o incêndio dava lugar, Ana Campista conseguira desaparecer.
Quando se fez a conta das recolhidas, deu-se por falta dela. Uns a acreditaram vítima do incêndio, outros pensaram que, aproveitando a confusão geral, ela tinha escapado a uma reclusão que aborrecia.
Mas faltava o tempo para as reflexões.
Empenhavam-se todos os esforços para atalhar o fogo. O fogo, porém, triunfava de todos os esforços do homem.
Com o estalido das madeiras, com o ruído dos tetos que desa bavam, com o sussurro sinistro das chamas, misturavam-se os gritos da multidão, as reclamações dos bombeiros e as ordens dos chefes, dadas em alta voz.
Lia-se em todos os semblantes a dor, chegavam a todos os corações os gemidos e as lamentações das recolhidas, e no meio dessa aflição de tantos, desse pesar de quase todos, retumbava de espaço a espaço uma gargalhada estridente.
Era Bota-bicas, que em sua loucura ria-se daqueles que não tinham querido acreditar no seu prudente brado! – Fogo no Parto!
Enquanto o incêndio devorava assim a capela e o recolhimento de N. S. do Parto, Ana Campista corria para o sítio onde Gil Soares a devia estar esperando.
Sem temor e sem refletir no mal que havia feito, sem receio da justiça dos homens e da justiça de Deus, impávida e resoluta, Ana Campista foi, com acelerado passo, atravessando o campo do Rosário, depois o campo de Santana, e avançando sempre para o sítio desejado.
Em sua marcha rápida encontrara grupos de curiosos que se dirigiam ao lugar do incêndio. Ninguém lhe falou, ninguém procurou conhecê-la.
Uma única vez ouviu a voz de um desconhecido, que exclamou, ao vê-la passar:
– Onde irá essa infeliz?
Ana estremeceu. Aquela pergunta inesperada, aquela palavra – infeliz – soou a seus ouvidos como um presságio funesto. Era tarde, porém, para o arrependimento.
A incendiária do recolhimento do Parto continuou a caminhar, e, arfando de fadiga, saudou, enfim, de perto a entrada do caminho de Catumbi.
Alguns passos ainda, e achar-se-ia nos braços de Gil Soares.
Ana Campista caminhou um pouco mais; de súbito, porém, hesitou, parou e teve medo.
Gil Soares devia estar só e Ana começava a entrever alguns vultos exatamente no lugar onde o seu amante prometera esperá-la.
A esposa adúltera julgou ouvir um gemido abafado. Aterrada, pensou em voltar e fugir, mas faltaram-lhe as forças e ficou imóvel.
Um dos vultos avançou para ela, deixou cair uma capa em que se envolvia, e mostrando bem de perto o rosto, perguntou-lhe com voz surda e lúgubre
– Conheces-me?
A desgraçada reconheceu seu pai e caiu de joelhos.
Leôncio Peres arrastou-a para onde estavam os outros vultos.
Ana viu de um lado dois homens mascarados, do outro Gil Soares com uma mordaça na boca, atado a uma árvore, e perto dele dois cavalos selados.
O sítio era ermo. Não havia ali socorro possível.
– A cavalo! – disse Leôncio Peres à sua filha. Queriam fugir,fugiremos.
Ana estava a ponto de desmaiar.
– A cavalo! – repetiu o velho terrível e cruel.
E como não fosse logo obedecido, Leôncio fez que Ana Campista se aproximasse de Gil Soares, e, tirando um punhal do seio, tornou a dizer:
– A cavalo!
Ana pareceu não ouvir.
O velho descobriu o peito de Gil Soares, e marcando o lugar do coração, aplicou aí a ponta do punhal, que penetrou algumas linhas.
A vítima gemeu. Ana sentiu o sangue do amante salpicar-lhe as mãos e soltou um grito de dor extrema.
– A cavalo! – bradou Leôncio com a mão no punhal.
Ana Campista, trêmula e arquejante, montou a cavalo.
O velho imitou-a logo, e disse aos mascarados:
– Podeis retirar-vos. E... silêncio!
E quando não ouviu mais o ruído dos passos daqueles ferozes cúmplices de uma vingança bárbara e inumana, Leôncio Peres tocou para diante do seu o cavalo em que ia sua filha e obrigou-a a romper em rápida carreira.
Dentro em pouco Gil Soares nem mais ouviu o tropel dos ca
valos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.