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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Ao cair da tarde, Bota-bicas viu o vice-rei Luís de Vasconcelos, que, saindo a cavalo, passava diante da cadeia. Perdendo então o medo ao carcereiro, bradou:

Bota-bicas está preso, deves mandá-lo soltar, Porque, preso, o Bota-bicas não pode bicas botar.

O vice-rei pôs-se a rir e ordenou que soltassem o pobre doido.

Esta ordem foi logo cumprida, e Bota-bicas, festejado pelos rapazes, achou logo entre eles um que mais velho parecia, e que o levou a comer sardinhas fritas com pimentões e a beber aguardente em uma tasca do beco, hoje rua do Cotovelo, onde o reteve até alta noite.

Esse apreciador do Bota-bicas era um caixeiro da casa comercial de Leôncio Peres.

A espécie de caridade que esse caixeiro mostrara converteu-se no mais repreensível abuso da miséria e do vício do doido.

O caixeiro evidentemente trabalhava por embebedar outra vez Bota-bicas, esforçando-se por fazê-lo beber vinho, aguardente e genebra, que não cessava do mandar vir.

Bota-bicas lutava heroicamente com o seu vício dominante. Cedendo à atração dos licores que o caixeiro lhe oferecia, levava os copos à boca, bebia algumas gotas. Mas deitava logo fora quase todo o vinho, aguardente e genebra.

– Por que não bebes? – perguntou-lhe o caixeiro.

– Não quero embebedar-me. Preciso falar ao vice-rei antes dameia-noite.

Mas o vício não ficava de todo vencido. Bota-bicas não se embebedava. Não tinha, porém, ânimo de sair da tasca.

O cheiro da aguardente encantava-o e retinha-o. Fê-lo esquecer que as horas corriam e prendeu-o à tasca por tanto tempo que o pobre doido soltou um grito e levantou-se desesperado, ouvindo os sinos de algumas igrejas darem o sinal da meia-noite.

Bota-bicas, sem atender ao caixeiro que o procurava reter, correu para o palácio e declarou que queria falar com o vice-rei.

Os soldados da guarda do vice-rei a princípio riram-se do doido. Um deles, porém, aborrecido da sua insistência, deu-lhe tal empurrão, que o fez cair estirado nas pedras.

Bota-bicas soltou um gemido pungente. Levantou-se a custo e retirou-se, murmurando:

– Não foi culpa do Bota-bicas.

Reinava o silêncio.

No recolhimento do Parto dormiam as recolhidas em profun do sono.

Mas, ao soar aquela hora solene da meia-noite, Ana Campista ergueu-se. Prendeu ao braço esquerdo uma pequena trouxa, acendeu uma lanterna, envolveu-a com um lenço para encobrir a luz, tomou algumas velas de que já se tinha munido, saiu para o corredor e seguia em direção à igreja, quando a porta da cela de Matilde abriu-se, e as duas esposas adúlteras acharam-se em frente uma da outra.

Matilde trazia também uma lanterna na mão direita e algumas velas na esquerda.

Ana Campista havia recuado um passo. Logo, porém, adivinhando pelos seus os desígnios de Matilde, avançou para ela e murmurou a seus ouvidos com acento ameaçador:

– Incendiária!

Matilde estremeceu, cambaleou, e cairia desmaiada no assoalho, se Ana Campista a não recebesse nos braços.

Não foi a compaixão nem sentimento algum de humanidade que impediu aquela queda. O ruído não convinha a Ana Campista, que por isso prevenira com o auxilio dos seus braços o baque de um corpo.

Logo depois, a ousada e terrível mulher descansou no assoalho Matilde desmaiada, deixou junto dela a lanterna, cuja luz apagou, e as velas que lhe pertenciam, e prosseguiu com passos rápidos e leves para a capela.

À uma hora da madrugada os habitantes da capital despertaram sobressaltados aos dobres dos sinos e ao rufar dos tambores.

O vice-rei montou a cavalo e saiu. As autoridades correram aos seus postos, os corpos militares já estavam em armas.

No primeiro momento supôs-se que rebentara uma conspiração a favor dos presos políticos comprometidos na projetada revolução de Minas Gerais.

Os tranqüilos habitantes da cidade do Rio de Janeiro hesitavam em sair de suas casas. Mas em breve encheram-se as ruas com a notícia de que se incendiara o recolhimento do Parto.

Fantasmas de negro fumo e horríveis línguas de chamas atestavam o grande infortúnio.

Uma fogueira colossal iluminava a cidade.

Ana Campista tomara com habilidade todas as suas medidas. Fora atear o incêndio no fundo da igreja, e o fogo desenvolveu-se sem ser sentido nesse lugar afastado.

Quando a luz infernal e ondas de fumo sufocante acordaram as recolhidas, já era tarde. O incêndio tinha conquistado toda a capela e invadia o recolhimento.

É inexprimível o terror e a desordem de que se apoderaram as infelizes recolhidas. Todas gritavam misericórdia, todas tentavam debalde salvarem-se.

Matilde, encontrada sem sentidos caída no corredor, tendo junto de si algumas velas e uma lanterna, foi logo reputada autora do horrível malefício.

(continua...)

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