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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

– Adeus – disse Ana Campista. – Conta comigo. Até depoisde amanhã às 2 horas da madrugada.

– Sim. Às 2 horas da madrugada.

Ana retirou-se. Gil Soares saiu da capela. E Bota-bicas deixou de roncar, e abriu os olhos.

– Fogo no Parto! – balbuciou ele espantado e levantando-se.

Era noite fechada. Bota-bicas não pensou mais no sacristão e, atirando-se para a rua, começou a correr e a bradar:

– Fogo no Parto! Fogo no Parto!

Todos aqueles que ouviam os gritos de Bota-bicas punham-se a rir.

– Ah! vocês riem-se? Pois é verdade! Fogo no Parto! Fogo no Parto!

Todos, porém, continuavam a rir do Bota-bicas e este a correr e a bradar, até que uma mão de ferro lhe travou o braço e uma voz grave e um pouco trêmula lhe disse:

– Basta, já sei. Queres tu cear e beber uma garrafa de bom vinho?

O terror de Bota-bicas dissipou-se de súbito ao encanto daquele convite.

– Se quero!

– Acompanha-me.

O doido obedeceu prontamente, e seguindo as pisadas do homem que lhe falava e que se conservava cuidadosamente rebuçado, entrou em uma taverna do largo da Carioca e foi sentar-se defronte no misterioso personagem, junto de uma rude mesa, em um gabinete escuro e úmido que havia no fundo da venda.

– Ninguém deve entrar aqui. Preciso estar só – disse o rebu-çado ao taverneiro. – Mande vir peixe, pão e vinho.

O taverneiro desapareceu imediatamente.

Bota-bicas sentiu uma impressão suavíssima, ouvindo falar em peixe, pão e vinho. Não pôde conter-se e bradou:

– Sardinhas fritas, pimentões e aguardente!

– Terás tudo isso e mais ainda – tornou o rebuçado. – Responde, porém, primeiro. Quem ainda há pouco saiu antes de ti da capela do Parto?

– Foi o Sr. Gil Soares – respondeu o doido.

–- E o que fez ele na igreja?

– Conversou no locutório.

– Com quem?

– Com a filha do Sr. Leôncio Peres.

O rebuçado violentou-se para conter uma imprecação.

O taverneiro trouxe quatro grandes postas de peixe frito, um prato de sardinhas com pimentões, farinha, pão e uma garrafa de vinho.

– Falta a aguardente – disse Bota-bicas, começando a devorar.

O rebuçado encheu de vinho um copo de quartilho, mas deteve o doido que se lançava já ao licor atrativo.

– Antes de beber hás de repetir-me a conversação de Gil Soares e... da recolhida.

– Fogo do Parto! – gritou Bota-bicas.

– Não grites, desgraçado! Explica-me isso em voz baixa, ouviste? Se gritares, deitarei fora o vinho.

O doido contou tudo quanto ouvira.

O rebuçado fê-lo repetir dez vezes todas as particularidades de trama.

– Podes beber – disse, entregando o copo a Bota-bicas. Agarrafa de vinho ficou logo esgotada.

– Mais vinho e meia garrafa de aguardente! – bradou o rebu-çado.

Bota-bicas exultou de prazer.

– Ouve – tornou daí a pouco o rebuçado. – Não quero quefales mais em fogo no Parto.

– Menos essa! – disse o doido.

– Por quê?

– Não quero que se queime a igreja.

– Não falarás.

– Fogo no Parto! – gritou Bota-bicas.

– Não te darei mais aguardente nem vinho.

– Algum outro me dará amanhã – respondeu o doido, e tornou a gritar!

– Fogo no Parto!

Ouviam-se risadas da gente que estava na taverna.

O rebuçado tranqüilizou Bota-bicas, oferecendo-lhe um copo de aguardente.

– Gostas de genebra? – perguntou logo depois.

– Venha – disse Bota-bicas.

Às 9 horas da noite o doido estava completamente bêbedo, e saiu do gabinete quase arrastado pelo misterioso rebuçado.

– Mais um copo de aguardente – disse este.

E o pobre doido bebeu ainda e foi cambaleando pela rua, preso pelo braço do rebuçado, que o levou assim até o princípio da rua da Cadeia, e que, aí chegando, bradou por socorro com voz alterada e aflita.

Acudiram logo alguns soldados da guarda da cadeia.

– Este bêbedo ofendeu-me e persegue-me – exclamou o rebuçado.

Bota-bicas não podia defender-se, e foi conduzido pelos soldados, que o trancaram na cadeia, enquanto o rebuçado voltava tranqüilamente para sua casa.

No dia seguinte Bota-bicas acordou espantado, achando-se na prisão. Lembrou-se vagamente do que lhe acontecera na véspera, sentia-se possuído de uma espécie de terror ao recordar-se do rebuçado, e voltando outra vez à sua idéia, tantas vezes gritou – Fogo no Parto! – que o carcereiro teve de impor-lhe silêncio ameaçando-o com pancadas.

O pobre doido calou-se, e, abraçado com as grades da janela da sala em que estava preso, passou o dia a olhar para a rua e a sofrer silencioso as zombarias dos meninos e dos garotos.

(continua...)

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