Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Descobrira-se em Minas Gerais o trama da famosa e patriótica revolução chamada do Tiradentes. Haviam sido presos em Minas os principais chefes da conspiração, e no Rio de Janeiro, além do infeliz Tiradentes, um outro comprometido e muitos inocentes.
Luís de Vasconcelos tornava-se suspeitoso e perseguidor.
A desconfiança e o terror estavam derramados na capital do Brasil. Falava-se em forcas e horrorosos castigos, espalhavam-se boatos de projetadas desordens para se soltarem e salvarem os patriotas. Os corpos militares estavam alerta. O povo vivia em sobressalto.
A monção era favorável aos atrevimentos de um amor impetuoso e louco. Matilde ardia por ver-se fora e longe do recolhimento do Parto, e desde o mês de julho trabalhou por preparar os meios de sua evasão, de acordo com Lopo de Freitas.
O pensamento dominante na alma de Matilde era aquele mesmo que manifestara no dia do seu casamento. Era um incêndio.
Lopo resistiu. Mas por fim cedeu. Na sua última conferência com Matilde ficou resolvido que esta lançaria fogo ao recolhimento na madrugada de 24 de agosto e que, aproveitando a conseqüente desordem, fugiria para ir encontrar-se com o seu amante na rampa do largo do Paço, onde, embarcando-se ambos em algum batelão, atravessariam a baía e iriam ocultar-se em algum longínquo distrito do interior. Este plano tinha sido forjado e absolutamente adotado no locutório a 21 de agosto.
Entretanto, a mesma idéia de incêndio e de evasão fora tambem concebida e planejada por Ana Campista e por Gil Soares, que igualmente assentavam de efetuá-la nas primeiras horas do dia 24 de agosto.
Por que essa coincidência na escolha do dia para a execução dos sinistros projetos? É fácil de explicar. Um prejuízo havia e há ainda hoje, fundado, aliás, em observações repetidas de fenômenos atmosféricos muito constantes no mês de agosto. Por esse prejuízo acredita-se na infalibilidade de furacões e ventos fortíssimos no dia de S. Bartolomeu. Ora, uma ventania era útil para dar toda a veemência ao incêndio. E portanto, as duas reclusas designaram, cada uma de sua parte, a madrugada do santo das tempestades para fazerem arder o recolhimento.
Ana Campista e Gil Soares tinham assentado encontrarem-se no locutório a fim de tomarem as últimas disposições ao começar a noite de 22 de agosto.
Como mais tarde veremos o locutório das recolhidas do Parto era na igreja que ficava por baixo do coro.
Na tarde de 22 de agosto, estava o sacristão da capela de Nossa Senhora do Parto muito cansado, varrendo a sacristia, e a lembrar-se de que ainda tinha de varrer a nave da igreja e os corredores, quando desatou a rir, ouvindo uma voz bem conhecida repetir-lhe em tom baixinho:
Reverendo sacristão, que estás com a vassoura em punho, varrerei por ti a igreja, se me deres cruz e cunho. -A
– Toma lá, Bota-bicas – exclamou o sacristão atirando com a vassoura ao poeta varredor.
Bota-bicas era um doido inofensivo, às vezes divertido, que então vivia na cidade do Rio de Janeiro, tão guloso como apaixonado das libações alcoólicas. Improvisava quadrinhas, quando tinha fome ou sede.
Por que o chamavam Bota-bicas? Não sei. Certo é que o próprio doido perdeu a lembrança do seu nome de batismo, habituando-se à alcunha que lhe tinham posto.
Bota-bicas era uma notabilidade burlesca da cidade. Conhecia todos os seus habitantes e era de todos conhecido. O mesmo vice-rei recebera dele, uma ou outra vez, cumprimentos em consoantes.
O sacristão foi passear e Bota-bicas ficou varrendo, com a esperança de receber alguns vinténs. Acabou de varrer e deixou-se na igreja à espera do sacristão. E tanto esperou, que de cansado sentou-se, e recostando-se a uma das colunas do coro estava quase adormecendo, quando sentiu rumor e viu Gil Soares aproximar-se do locutório, a quem logo depois veio falar Ana Campista.
Curioso de ouvir a conversação de uma recolhida, Bota-bicas fingiu dormir e começou a roncar como um endemoninhado.
– Quem está aí? – perguntou Ana.
– É o Bota-bicas – respondeu Gil Soares.
– É preciso despertá-lo e fazê-lo sair.
– Mas esse doido conhece-nos, e se nos visse aqui poderia falar.
– E se nos ouvisse?
– Um homem que dorme não ouve. Aproveitemos o tempo.Sobreveio algum inconveniente que possa contrariar o nosso plano?
– Não. Depois de amanhã, à 1 hora da madrugada, um incên-dio estará devorando este maldito recolhimento, e às 2 horas conto achar-me fora dele e correndo para encontrar-te.
– À meia-noite em ponto – respondeu Gil Soares. – Postar-me-ei com dois fogosos cavalos à entrada do caminho de Catumbi. É aí que te espero, Ana, para nunca mais nos separarmos, porque o asilo a que nos recolheremos é tão longe da capital como aprazível e seguro.
Nesse momento soou o toque de uma sineta.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.