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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

– Então? É que o crime de que acusam minha filha importanuma sentença de morte para ela e para mim.

– E então? – repetiu Lourenço, como se receasse ter compreendido mal o lúgubre pensamento do velho.

– Então? – continuou este. É que o juiz tem necessidade deinteirar-se de toda a verdade, antes de lavrar a sentença que deve arrancar do mundo uma filha que desonrou seu pai, e um pai que não tolera a vida com o opróbrio.

Leôncio Peres falara com voz pausada e grave. O seu rosto mostrava uma serenidade aterradora.

Pai severo e homem de justiça cruel, que não sentia que a justiça deixa de o ser, quando se torna em crueldade, Leôncio Peres tinha já tomado uma resolução irrevogável.

Essa resolução preparava um atentado nefando.

Leôncio Peres era no fundo um mau homem.

Lourenço conservava-se em pé diante de seu sogro, que tornou, dizendo:

– Assim, pois, devemos primeiro chegar à evidência dos fatosque nos revelam. Descansa em mim. Silêncio e dissimulação. Dentro de três dias eu te falarei.

Lourenço obedeceu. Não falou. Não dormiu. Mas fingiu dormir. Dissimulou, e sabia já demais, quando no fim de três dias o sogro o chamou ao escritório.

– Tudo é verdade – disse Leôncio Peres.

– Eu o sei – respondeu Lourenço.

– Uma filha que enche de ignomínia seu pai – tornou o velho.Uma esposa que mancha o nome de seu marido é uma criminosa que deve morrer. É, porém, necessário que a sua morte não pareça um castigo, porque um castigo seria a manifestação pública da infâmia.

Lourenço estremeceu.

– Vou dizer-te como hás de matar tua mulher – continuou

Leôncio.

– Matá-la?... Eu?... – exclamou o infeliz.

– Bem – prosseguiu o velho. – Não serás tu o algoz. Mas, emfalta do marido que devia castigar a esposa infiel, o pai saberá punir a filha.

Lourenço horrorizou-se do que lhe dizia Leôncio, e saindo logo depois, tão ativamente trabalhou, que na tarde desse mesmo dia Ana Campista, quando menos o esperava, foi por seu marido conduzida para o recolhimento do Parto.

Lourenço não dera explicação alguma a sua mulher, não a injuriou, nem a maldisse. Obrigou-a a sair com ele, levou-a ao recolhimento, e ao vê-la entrar, disse-lhe:

– É o seu lugar. Arrependa-se.

Ana desapareceu. Lourenço escondeu duas grossas lágrimas que lhe caíram dos olhos e voltou para casa.

Tinha-se realizado a profecia do mestre Valentim.

Às sete horas da noite. Leôncio Peres chegou à casa de seu genro. Onde está minha filha? – perguntou, antes de sentar-se.

– No recolhimento do Parto – respondeu o genro.

O velho lançou um olhar de desprezo e de cólera sobre Lourenço, e saiu.

Leôncio Peres não tornou a aparecer no seu escritório a quem quer que fosse, e nunca mais dirigiu a palavra a seu genro. Escondendo-se de dia a todos os olhos, saía apenas de noite para ir passear muito tempo e sempre diante da capela do recolhimento do Parto.

O ressentimento e a severidade selvagem desse velho eram implacáveis.

Vagando de noite em frente do recolhimento do Parto, onde estava encerada sua filha, Leôncio Peres era como a sentinela de uma vingança satânica.

E era mil vezes horrível, por isso mesmo que era pai.

IV

Ana Campista e Matilde tinham-se encontrado no recolhimento do Parto. Mas um ódio inflexível as separava para sempre. Eram ambas criminosas, estavam ambas igualmente corrompidas pelo vício. Matilde, porém, era ainda menos repulsiva do que Ana Campista.

O tempo foi correndo, e pouco e pouco caiu no esquecimento a história das desordens e loucuras das duas esposas adúlteras, e foi também esmorecendo a vigilância que se tivera sobre elas.

Lopo de Freitas e Gil Soares, escravos dos encantos dessas reclusas, sentiam redobrar a paixão que os devorava, por isso mesmo que a violência erguera muralhas insuperáveis e duras grades de ferro entre eles e suas amantes.

As reclusas e os dois apaixonados conseguiram escreverem-se. Mais tarde, Gil Soares e Ana Campista, Lopo de Freitas e Matilde encontraram-se e falaram-se algumas vezes no locutório.

Libertino e audaz como Gil Soares, Lopo de Freitas seguia também como ele o mesmo caminho. Seus destinos pareciam medidos pelo mesmo pensamento. Ambos, porém, ignoravam que iam marchando no mesmo terreno, e semelhantemente Ana Campista e Matilde mal pensavam que a vida e o proceder de uma eram ali, no recolhimento, verdadeira cópia da vida e do proceder da outra.

Adiantava-se o ano de 1789. Estava chegando ao seu termo o mês de julho.

Um acontecimento tristíssimo preocupava todos os espíritos, e tinha feito ainda mais esquecer as duas reclusas.

(continua...)

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