Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Mas esta mulher ousada e falsa tremia pela primeira vez. Receava que a tivessem conhecido no Passeio, que Matilde a houvesse comprometido. Receava as conseqüências de uma luta que devia ter havido entre Gil Soares e Lopo. E receava-se, mais do que tudo, da cólera de seu pai.
E foi ainda com violento esforço que dissimulou o medo de que estava possuída, quando, na manhã seguinte, recebeu Gil Soares, que veio lhe pedir alguns momentos de atenção.
Lourenço Taques já tinha saído.
Gil Soares estava pálido e agitado. Soubera da cumplicidade de Ana Campista no crime de sua mulher, e queria confundi-la antes de denunciar a sua culpa a Lourenço Taques e a Leôncio Peres.
Nas primeiras horas do seu arrebatado e justo desespero, pareceu-lhe transformado em ódio o amor que tantas vezes, desde alguns dias, e até então sempre inutilmente, o arrastava aos pés de Ana Campista.
Chegou trazendo na alma um pensamento de vingança cruel.
Ana fingiu não reparar na agitação de Gil Soares e pediu-lhe notícias de Matilde.
– Esta noite – disse Gil Soares, – teve lugar no Passeio Públi-co a última entrevista dessa mulher com Lopo de Freitas, seu amante. O infame escapou à minha vingança, porque, aos gritos de uma esposa que me desonrou, acudiram intrometidos que o arrancaram de minhas mãos.
Ana Campista não respondeu, mas fitou um olhar audacioso no rosto de Gil Soares.
– Quer notícias da sua amiga? – continuou este. – Acha-sebem guardada no seu quarto, onde não receberá nem parentes, nem amigas, até que amanhã entre no recolhimento do Parto, para ficar nele todo o resto da sua vida.
Os olhos de Ana Campista brilharam com um fogo irresistível. O seu seio, abalado por uma viva comoção, mostrou-se ofegante de ardor e voluptuosidade. Ela não arredava suas vistas magnetizadoras do rosto de Gil Soares, que, começando a experimentar a influência daquela mulher perigosa, para escapar à fascinação do seu olhar, abaixou um pouco os olhos, mas deixou-os presos ao seio que arfava tão provocadoramente.
– Minha mulher atraiçoou-me, – continuou ele – e sofrerá,portanto, o merecido castigo. Sei, porém, que ela teve uma cúmplice que eu preciso conhecer para puni-la também.
Ana Campista fez um movimento e ergueu-se. Os seus cabelos negros desataram-se e caíram em enchentes de bastos anéis sobre os seus ombros nus.
– A senhora – prosseguiu Gil Soares – amiga íntima de Matilde, necessariamente conhece a sua cúmplice. Quem é, pois, essa mulher? Quem é?
– Sou eu – respondeu Ana Campista.
– E ousa dizê-lo?!
– Sim. Fui eu que levei Matilde à perdição. Fui eu que caveium abismo entre ela e seu marido.
Gil Soares encarou confuso, quase aterrado, a mulher que assim lhe falava, e viu-lhe no semblante a audácia, a paixão, o arrebatamento em flamas abrasadoras.
– Mas é horrível – disse ele atônito.
– Sim! – exclamou Ana, prorrompendo. – Mas eu te amava!Eu te amo, Gil Soares!
No dia seguinte, Matilde entrava para o recolhimento do Parto, e Ana Campista ficava sendo a amante de Gil Soares.
Mulher execrável, porém alucinadora, fez do inconstante e libertino Gil Soares um escravo submisso. Dominou sobre ele, tornou-se o encanto e a loucura de sua vida.
Alguns meses durou a gozar tranqüilo desses indignos amores.
Ana Campista, embebida nos triunfos da sua paixão, tinha-se esquecido de um homem que devia vingar Matilde.
Lopo de Freitas descobriu a traição de que ele e a sua amada haviam sido vítimas, aborreceu ainda menos Gil Soares do que Ana Campista. Mas, observando com a solicitude e a vigilância do ódio os passos dos seus dois inimigos, exultou, conhecendo que podia tirar deles uma desforra completa.
Sem que lhe tremesse a mão com a vergonha de uma vil denúncia, escreveu a Lourenço Taques, informando-o dos desregramentos de sua mulher, e a Leôncio Peres, anunciando-lhe a desonra de sua filha, e julgou-se livre da ignobilidade de denunciante, escondendo-se com a capa do anônimo.
Lourenço estava em companhia do sogro, no escritório da sua casa comercial, quando as cartas de Lopo de Freitas foram entregues. E apenas leu a que lhe era dirigida, rasgou-a com raiva, exclamando:
– É impossível! É uma calúnia!
– É possível – disse Leôncio com amargura e calma. – É mesmo provável. Eu já o suspeitava.
Lourenço sentiu um ímpeto de cólera igual ao amor ardente que nutria por Ana Campista, e ia sair precipitado, mas Leôncio Peres o deteve.
– Espera – disse ele a Lourenço.
– Atraiçoado e esperar! – exclamou o marido amante e des-graçado.
O velho riu-se de um modo feroz.
– E eu não espero? – perguntou.
– O senhor não é marido, é pai.
– Mas eu espero porque... devo ser juiz, e se for preciso, sereialgoz.
Passaram alguns momentos de silêncio.
– Escuta-me, tornou Leôncio. – Eu não compreendo a vidacom uma nódoa, nem admito que haja perdão para a filha que desonra seu pai.
–
E então?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.