Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
– Quem to disse?
– Agora mesmo começavas a confessá-lo.
Matilde corou. Ana Campista alterou-lhe o rubor da face, envenenando com um beijo insano a rosa do pudor.
– Quem é o teu apaixonado? – perguntou.
– É Lopo de Freitas, que me requesta em toda a parte ondeencontra, apesar da aspereza com que o trato.
– É um moço nobre, bonito, discreto e rico. Quantas invejariam a tua felicidade! Ah! o Sr. Gil Soares paga-te bem essa tua surdez aos protestos de amor de Lopo de Freitas.
A lembrança da ingratidão de Gil Soares era naquele momento inspirada pelo Demônio.
– Pode-se lá deixar de ser surda? – murmurou sinistramente
Matilde.
Alguns momentos depois, Ana Campista perguntou:
– Vês muitas vezes Lopo de Freitas?
– Não.
– Pois é fácil vê-lo.
– Onde?
– Na ópera.
– Raramente vou à ópera.
– Queres ir comigo depois de amanhã?
– Irei.
Facilmente pode-se calcular como passaram os dois dias que correram entre a noite de Natal e a da ópera, a que deviam ir Ana Campista e Matilde.
A casa da ópera era naquele tempo defronte das primeiras janelas do lado direito do palácio dos vice-reis, exatamente a mesma casa que depois ficou sendo uma dependência do paço, e que ainda hoje se vê paralela ao edifício da Câmara dos Deputados.
Não direi agora o pouco que tenho conseguido saber a respeito dessa casa da ópera. Porque tal assunto será tratado em um dos nossos próximos passeios.
Ana Campista e Matilde não faltaram à ópera. Estavam ambas vestidas com elegância e primor, e enquanto uma, pela fascinação da voluptuosidade. fazia esquecer que não era formosa, a outra avassalava corações com o poder de sua beleza, mais fulgurosa ainda naquela noite por uma indizível exaltação que parecia em luta com o receio.
Defronte delas mostrava-se um cavalheiro radiante de mocidade. Tinha olhos pretos, a fronte alta, rosto pálido e belos dentes. Estava vestido como um peralta do seu tempo. Era Lopo de Freitas.
Acaso ou prevenção de quem facilmente se adivinha, Lopo escolhera um lugar onde, volvendo apenas os olhos, podia contemplar Matilde. Ainda não tinham sido introduzidos no Rio de Janeiro os binóculos teatrais e naquela casa da ópera um binóculo seria um pleonasmo, como atualmente se diz no Ginásio. Além disso Lopo tinha bonitos olhos e excelente vista.
É inútil dizer que o mancebo inebriava-se, devorando com um olhar abrasador o lindo rosto de Matilde, que, pela primeira vez, não se mostrava enfadada com essa adoração atrevida.
Representava-se a ópera intitulada Guerras do Alecrim e Mangerona, do nosso Antônio José da Silva, o chamado Judeu, a quem o horrível tribunal da Inquisição fez queimar em uma de suas infernais fogueiras.
O público aplaudia com ardor o espirituoso semicúpio, enquanto Lopo de Freitas repetia com os olhos a Matilde as finezas que D. Gilvaz e D. Fuas rendiam a D. Clóris e a D. Nize.
Entretanto, Matilde tolerava apenas, mas não correspondia ainda às demonstrações de amor do seu namorado.
D. Fuas cantou na cena os versinhos seguintes:
Se chego a vencer
De Nize o rigor,
De gosto morrer Você me verá.
Porém, se um favor
Alenta o viver,
Quem morre de amor
Mais vida terá.
Ao terminar o canto, encontraram-se os olhos de Lopo e de Matilde, e tanto fogo havia nos do mancebo, que Matilde abaixou os seus e mostrou o rosto inundado do rubor do pejo.
A ópera auxiliava Lopo de Freitas, porque logo depois veio a cena em que D. Clóris cantou por sua vez:
Dirás ao meu bem
Que não desconfie,
Que adore, que espere,
Que não desespere,
Que à sua firmeza
Constante serei;
Que firme eu também
A tanta fineza,
Amante constante
Extremos farei.
Lopo e Matilde tornaram a olhar-se e sorriram ambos da coincidência daqueles cantos com as falas dos seus corações.
O sorriso de Matilde não escapou a Ana Campista.
– Até que enfim! – disse esta ao ouvido da amiga, ao mesmo tempo em que lhe apertava a mão.
O resto do espetáculo foi para Matilde cheio de novos sorrisos, daqueles sorrisos sacrílegos que murcham depressa, cedendo o rosto às lágrimas e o coração aos remorsos.
Algumas semanas de galanteio acabavam de perder Matilde. A vingança a impelira, a vaidade incensada e satisfeita embriagou-a. E pouco a pouco, uma paixão infrene arrastou-a ao precipício.
Ana Campista protegia um amor criminoso, que devia servir aos seus cálculos.
Lopo de Freitas pediu uma entrevista a Matilde. O prazo e o
lugar foram marcados.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.