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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Dou apenas uma ligeira idéia destas festas, de que espero tratar mais de espaço. Agora é impossível continuar a discorrer sobre este assunto, visto que nos cumpre acompanhar duas senhoras de mantilha que não devemos perder de vista.

Ana Campista e Matilde, depois de um quarto de hora de acelerada marcha, entraram no largo da Carioca, foram subindo a ladeira de S. Antônio, demoraram-se apenas alguns momentos diante do presépio, continuaram a subir, e chegaram enfim ao pátio da frente do convento e igreja, onde já havia muito povo, embora ainda fosse um pouco cedo para a missa do galo.

Cheio estava o pátio. Mas tornava-se notável que a quase tota lidade dos fiéis que aí se achavam se desviassem de um grupo de mancebos e de moças, que assim se mostrava isolado. Contudo, o observador conhecia bem depressa a causa dessa separação, que era um protesto dos bons contra o sacrilégio da libertinagem em uma noite de tão santas recordações.

O grupo condenado ostentava ali à face de todos a vilania dos costumes de mancebos desmoralizados e de mulheres loucas que não se envergonhavam de uma conversação licenciosa e misturada de frenéticas risadas.

As duas senhoras recém-chegadas tinham-se misturado com a multidão; e Ana Campista, estendendo o braço para fora da mantilha, mostrou a Matilde Gil Soares no meio do grupo reprovado, tendo pelo braço a mais petulante daquelas mulheres sem nome.

Basta! – murmurou Matilde, segurando-se ao braço da falsa amiga.

– Ainda não – respondeu Ana Campista.

A missa começou à meia-noite em ponto, e finda ela o povo que enchera a igreja desceu pela ladeira, como um exército que desfila.

Ana e Matilde seguiram de perto o grupo licencioso, que foi ruidosamente visitar o presépio do convento de Ajuda, seguindo daí para o do Livramento. Gil Soares não deixara um só instante o braço da mulher que acompanhava desde o pátio da igreja de S. Antônio.

– Basta! – balbuciou de novo Matilde.

– Ainda não – repetiu Ana Campista.

Voltando do Livramento, o grupo foi pouco a pouco se dissolvendo ao som de gargalhadas e de zombarias. Finalmente, acharam-se sós Gil Soares e a sua indigna companheira, que, parando à porta de uma casa de triste aparência, bateu com força, e, apenas a viu aberta, entrou com aquele marido que atraiçoava sua mulher.

A porta fechou-se.

– Basta! basta! – disse Matilde em convulsivo tremor.

– Agora sim, basta! – respondeu Ana Campista.

E voltaram ambas para a casa, onde entraram às 4 horas da madrugada.

Lourenço Taques dormia ainda a sono solto.

As duas senhoras arrancaram as mantilhas e sentaram-se extenuadas de fadiga.

Depois de algum tempo dado ao descanso, Ana Campista rompeu o silêncio.

– Então? – perguntou.

– É um infame! – exclamou Matilde. – Hoje mesmo separar-me-ei desse monstro.

– Louca! O mundo te cobriria de ridículo ou de ignomínia.

– Oh! É assim? Pois bem, matar-me-ei.

– E o teu belo viúvo não se divertirá menos por isso.

– Sim... sim... Mas que farias tu?

– Não se trata de mim, Matilde.

– Mas. Se se tratasse?

– Não aconselharei a mulher alguma que faça o que eu faria.

A serpente ia-se arrastando para dar o bote.

– Não aconselha, porém fala. Que farias?

– Não te direi.

– Ana! Não és mais a minha amiga fiel.

– Ingrata? Depois do que acabo de fazer por ti!

– Dize, pois, que farias?

Ana respondeu em voz baixa, mas terrível.

– Vingar-me-ia!

– Vingar-me? Oh! Sim. Porém como?

Ana Campista olhou para Matilde com piedade, e depois dis-

se-lhe:

– Vai chorar.

– Ana!

– Quem no teu caso não compreende qual é a vingança quedeve tomar é uma criança, a quem só cumpre chorar.

Uma luz infernal brilhou aos olhos de Matilde, e o demônio que acendera essa luz contemplou com um rir de triunfo a exaltação e o delírio da esposa traída.

III

Estava aberto o caminho da perdição de Matilde, e para precipitá-la por ele conspiravam o ciúme, a vaidade ofendida, o amor justamente ressentido, um espírito exaltado, uma natureza ardente e a educação mal dirigida.

E além de tudo isso, velava sinistra ao lado de Matilde a traição com a máscara da amizade.

– Vingar-me-ei! – repetiu a infeliz com um tom que indicavajá um pensamento criminoso.

– Sim – observou Ana Campista. – Um amor cura-se comoutro amor.

Era ainda um conselho pérfido que prometia o castigo do esposo infiel com a infâmia da esposa traída, como se a desonra desta não tivesse de atenuar de certo modo a maldade daquele.

Mas o provérbio imoral fizera estremecer Matilde.

– Um outro amor! – disse ela, atraiçoando-se. – Um outroamor! E eu que...

– Acaba. Já és amada por um belo mancebo.

(continua...)

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