Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Condenada e proscrita por todas as moças e por todas as senhoras faceiras, a mantilha, que era um romanesco e cômodo recurso para as jovens e matronas de todas as classes e posições no século passado, e ainda no princípio deste, tornou-se desde alguns lustros em objeto de irrisão, e nem é mais permitido às próprias mendicantes, a quem os gaiatos, ao encontrá-las assim vestidas, perseguem cruelmente, gritando: “Barata! barata!”
Entretanto, a mantilha, que se usava tanto no Brasil, e que, como todos sabem, não era um manto curto, que é o que significa esse nome, porém, sim, um manto de pano preto, e tão longo que caía da cabeça até aos pés e envolvia a mulher toda, escondendo-a desde os cabelos até à barra do vestido, a mantilha era dantes tanto um espesso véu, em que se ocultava a pobreza e a velhice, como uma nuvem, que encobria uma estrela brilhante. Era ao mesmo tempo o manto da mendicidade e o disfarce da riqueza. Um expediente de amor e um recurso do ciúme.
Ah! quantos romances não pôde dar a mantilha do século passado!
E as senhoras condenaram e proscreveram as mantilhas! Coitadinhas! Perdem-se sempre pela sua vaidade.
Mas, como eu ia dizendo, Ana Campista e Matilde caminhavam apressadamente, levando suas mantilhas tão fechadas diante do rosto, que apenas seus olhos brilhantes podiam ser descobertos e apreciados pelos curiosos, que abundavam no meio das ondas do povo que en chiam as ruas.
Admitindo que os meus companheiros de passeio principiem a interessar-se pela história que vou contando, sou obrigado a pedir-lhes perdão, porque é força que eu a interrompa por momentos, para dizer em duas palavras alguma coisa sobre as festas do Natal na cidade do Rio de Janeiro, tais como elas eram no século passado e ainda em alguns anos do atual.
As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis.
O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores.
No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. António, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento.
Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.
O presépio do Livramento era propriedade e glória do célebre cônego Filipe. As figuras que ali se apresentavam eram de barro e tinham dois palmos de altura, e de tanta fama gozava esse presépio que o príncipe regente, depois rei d. João VI, o visitou por mais de uma vez.
Como já disse, o proprietário desse presépio foi aquele sempre lembrado cônego Filipe, que se imortalizou por trinta mil simplicidades. Uma vez, por exemplo, indo esse cônego pregar em uma festa fora da cidade, hospedou-se na casa do festeiro, e, como chovesse muito durante a noite e houvesse uma goteira exatamente por cima da cama em que devia dormir o cônego, este passou a noite inteira sentado na cama a receber no prato do rosto a água que caía da goteira. No dia se guinte, lamentou-se o pregador da sua triste e maçante vigília.
– Oh! Sr. cônego! – disse o festeiro. – Por que não afastou V.Rev.ma para longe da goteira a sua cama?
– Homem! – respondeu o cônego. – Você tem toda a razão.Mas essa só lembra ao Diabo!
E como esta muitas outras.
Ao dia do Natal seguia-se o de Ano Bom, que era o das visitas, dos presentes, dos banquetes e dos obséquios.
E enfim, o dia de Reis fazia-se muito apreciado pelas cantatas de reis, que começavam na noite de 5 e repetiam-se na de 6 de janeiro.
Eram numerosos os reis que corriam a cidade, cantando às portas das casas das famílias amigas, que ofereciam a esses obsequiadores ceias opíparas e riquíssimas e variadas mesas de doces. Havia cantador de reis que atacava dez ou doze ceias em uma noite e não tinha indigestão.
Os cantadores de reis compunham-se de mancebos e moças, de ordinário vestidos à camponesa, e de alguns grotescos mascarados, a quem competia alegrar as companhias, provocando risadas.
Percorrendo a cidade em diversas direções, reuniam-se enfim
todos os cantadores de reis no pátio do convento da Ajuda, onde terminava a
festa alegremente, em um outeiro mais ou menos brilhante. As freiras davam
motes do alto das janelas e por entre as grades, e os poetas glosavam como
podiam e de improviso, mas quase sempre com metrificação livre.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.