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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Ozéas, soltando um grito, correu para ele, tomou-o violentamente nos braços, escondeu-lhe a cabeça entre as suas mãos trêmulas, tapando-lhe o rosto contra seu peito.

E ficou por longo tempo a fitar, ameaçadoramente, a linda cortesã.

A multidão precipitou-se para junto dos dois eletrizada de curiosidade. Todos queriam saber no mesmo instante o que havia acontecido.

Mas os sinos começaram a repicar alegremente; a orquestra tocava já uma música profana; nuvens de incenso ergueram-se de novo. A missa estava terminada.

E Ângelo, sem levantar a cabeça do colo de seu pai, afastou-se do altar e saiu da capela, vagarosamente, arrastando os pés como um cego.

Não se lhe ouviam os soluços, mas todo o seu corpo se agitava nas convulsões do choro.

CAPÍTULO IX

Um olhar de mulher

Ângelo, de volta da igreja, assim que se achou no carro a sós com Ozéas, abriu a soluçar, numa convulsa explosão de todo o seu ser.

Não podia, entretanto, determinar o que se passava em sua alma. Era uma agonia estranha e dolorosa, que a revolucionava sem dizer porque; um íntimo martírio, feito de vagas apreensões, que a atordoavam de terror por iminentes e desconhecidos perigos.

Sem ter a menor idéia da vida comum, sem desconfiar sequer do maravilhoso efeito que o seu sermão de quinta-feira santa produzira sobre o público, que poderia o mísero compreender de todo aquele ruidoso entusiasmo que o cercara, e de todos aqueles ávidos olhares feminis que o devoravam de curiosidade?

Seu próprio nome, ouvira-o ele repetido por tantas bocas ao mesmo tempo, que agora lhe chegava à memória como o estribilho de uma singular canção, falada em língua alheia.

Ozéas, ao seu lado, meditava sem erguer a cabeça, recolhido em profunda preocupação.

Não deram ambos uma só palavra durante a viagem, até chegar ao mosteiro.

Entraram na cela como duas sombras.

O presbítero foi direito ao altar da Virgem, caiu de joelhos defronte dela e quedou-se a fitá-la, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo rosto, agora silenciosamente.

Depois ergueu-se e começou a considerar, abstrato, tudo que o cercava ali, como se visse aqueles objetos pela primeira vez.

E tudo aquilo nunca lhe pareceu tão miserável, tão ermo e turvo, como naquele instante. Aquela dura prisão, onde surdamente se escoara a triste mocidade, nunca lhe pareceu tão árida e tão mesquinha. Aquelas nuas paredes, empalidecidas pelo tempo, nunca lhe pareceram tão apertadas, e aquele sombrio teto, tão baixo e tão sufocante.

Olhou longamente para as suas velhas estantes carregadas de pesados livros religiosos, olhou para a sua tosca e tranqüila mesa de estudo, para a sua pobre enxerga de condenado, e ficou a considerar o cilício pendido da parede junto ao altar da Virgem.

Ozéas observava-o, imóvel até ali, de braços cruzados, com uma inconsolável e funda expressão de mágoa no olhar.

Afinal, foi ter com ele, e tocou-lhe no ombro. Ângelo despertou sobressaltado.

— Então, meu filho, disse o velho com voz segura; continua a tua perturbação?...

Ângelo não deu resposta.

— Vamos! Fala!

— Sim, meu pai, tartamudeou o pobre moço, volvendo para ele os olhos inocentes. E peço-lhe que me deixe a sós; preciso concentrar-me, até voltar à minha primitiva tranqüilidade...

O velho insistiu, segurando-lhe as mãos e fitando-o, como se procurasse arrancar-lhe pelos olhos a confissão da revolta que lhe ia na alma.

— Mas como explicar semelhante perturbação?... exclamou ele. Pois então justamente hoje, hoje que tua alma devia, melhor que nunca, resplandecer de santo júbilo; hoje, que deste o teu último passo para chegar ao coração da igreja; hoje, que deste o teu supremo voto; hoje é que te sentes conturbado e aflito?!... Como explicar semelhante anomalia?!...

— Não sei... não sei... balbuciou Ângelo. Deixe-me ficar só, meu pai! Deixe-me conversar com a minha pobre alma!...

— Mas tu nunca faltaste a nenhum dos teus deveres... tornou o frade. Tu nunca pecaste, por palavras, nem por obras, nem por pensamentos... tu, que foste por bem dizer educado pela mão de Deus, porque até hoje te não afastaste uma linha do seu divino ritual... tu, que não tens sequer a idéia da culpa... tu, és tão inocente e tão puro como no dia em que te trouxe em meu colo para este convento... tu, que vieste das mãos de Deus para as minhas, e das minhas tornaste hoje diretamente para as mãos de Deus... porque tremes agora e por que me olhas desse modo, Ângelo?!

— Não sei, não sei, meu pai!

E Ângelo, como se receasse a traição dos próprios olhos, sentou-se no banco e escondeu o rosto nas mãos.

Ozéas chegou-se mais para ele e disse, depois de contemplá-lo em silêncio por algum tempo:

(continua...)

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