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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Que delicioso passeio! O Senhor não pode imaginar quanto eu me senti feliz... Mais alguns passos, e tínhamos chegado a um caramanchão ou, melhor, a um alpendre de verdura misterioso, tépido, todo impregnado dos perfumes do campo e das sombras da folhagem. Ao lado uma cascata corria em sussurros, e as suas águas quebravam­se nas pedras, irradiando a fulguração do sol.

Paulo deixou­me por um instante, para ir buscar o carro. E nesse momento de independência, quando senti que não era observada por ninguém, levantei­me, bati palmas e pus­me a dançar como uma doida; depois galguei aos saltos o lado da cascata e recebi no rosto o pó úmido das águas. Abaixei­me, colhi água na concha das mãos e bebi. Afinal assentei­me no chão, e abri a cantar.

Paulo voltou com o carro e recolheu ao pavilhão o cesto do almoço. Estendeu a toalha sobre uma mesinha de pedra que havia, e pousou nesta uma máquina de café, duas garafas de bordeaux, uma de champanha, uma botija de curaçau, uma empada, um assado, queijo, frutas e pão.

Eu sentia apetite, e confesso que estava encantada com tudo aquilo. Era a primeira vez que me animava a fazer uma folia desse gênero — um almoço ao ar livre ao lado de um rapaz.

E Paulo não me parecia o mesmo homem, descobria­lhe maneiras e qualidades, para as quais jamais atentara enquanto o vira somente nas frias atitudes circunspectas da vida, notava­lhe agora a distinta estroinice dos pândegos de boa família, criados e animados entre senhoras finas e orgulhosas; um certo pouco caso, fidalgo e elegante, pelas virtudes comuns e pelos vícios vulgares; um ar altivo e másculo de quem está habituado a gastar forte com os seus prazeres; uma linha moderna, libertina e gentil a um tempo, feita de extravagâncias de bom gosto, e um pouco de viagens, alguns conhecimentos de música, um nada de política, anedotas francesas, algum dinheiro, charutos caros, um monóculo, o uso de várias línguas, um bigode, duas gotas de mel inglês no lenço, um fato bem feito, um chapéu de palha, luvas amarelas, polainas e uma bengala.

E o grande caso é que estava um rapagão, cheio de gestos largos, de atiramentos de perna, e de grandes exclamações em inglês.

Assentei­me no banco que circundava a mesa, e ele fez o mesmo defronte de mim. Informou­se se eu estava satisfeita com o passeio, falou em repeti­lo. Era preciso aproveitar o verão! Mas aos domingos nada! havia muita gente!

E abria garrafas, dava lume à máquina de café, servia­me de mariscos e falava­me do seu amor. Eu contei­lhe francamente as impressões que recebera àquela manhã, e mostrei­me satisfeita.

"Se soubesse, minha amiga, dizia­me ele, quanto me sinto bem ao seu lado!... Nem mesmo me reconheço, creia! Fico tolo só com pensar em nossa futura felicidade, em nossa casa e em nossos...

Ia falar nos filhos, mas deteve­se e ficou a olhar­me com uma grande insistência humilde. Parecia haver um pranto escondido por detrás das suas pupilas azuis.

"Descanse. Falta pouco!" respondi eu, possuída de alguma cousa, que não sei bem se era compaixão.

"Falta um século!..." emendou ele com um suspiro. E chegou­se mais para mim. Tinha o ar tão respeitoso que não fugi.

"Por que não fica mais à vontade?" disse­me. E ajudou­me a tirar o chapéu e desfazer­me do mantelete.

Houve um silêncio. Ele queixou­se da falta de gelo, abriu uma nova garrafa de bordeaux e encheu os copos. Depois, leu­me uns versos, que a mim fizera no tempo do colégio. Vieram logo as recordações da infância, o nosso namoro. — Quanta criancice!

" — E o bofetão?..."

Esta lembrança trouxe­me uma risada, que me fez engasgar. Sobreveio­me tosse, fiquei um pouco sufocada; ele levantou­se logo, começou a bater­me delicadamente nas costas. E, a pretexto de auxiliar­me, afagava­me os cabelos e a fronte.

"Não é nada! Não é nada!" dizia Paulo; "vá um gole de champanha!"

"Não! antes água!..."

Ele correu à cascata, e voltou com um copo d’água.

Tornamos à palestra, e eu não reparei logo que o rapaz desta vez ficara inteiramente encostado a mim. Passamos à sobremesa. As pilhérias repetiam­se mais amiúde.

Paulo pôs­se a fumar.

Consenti nisso e disse até que gostava do cheiro do fumo. Ele fez saltar a rolha do champanha.

Sentia­me enlanguecer; os olhos ardiam­me um tanto e o corpo me pedia repouso. Insensivelmente fui perdendo alguma cousa da minha cerimônia e me pondo à vontade; estiquei mais as pernas, recosteime nas costas do banco e inclinei para trás a cabeça.

Ele ficou a olhar­me muito, com um ar sério e infeliz. Eu tive vontade de dizer alguma cousa, e nada mais consegui do que sorrir. Estava prostrada.

Paulo aconselhou­me que fumasse um cigarrinho, e essa idéia extravagante não me pareceu má. Fumei o meu primeiro cigarro.

Em seguida senti um vago desejo de dormir. Ele serviu o café e o licor.

E continuamos a conversar.

As recordações do tempo do colégio vinham a todo o instante.

(continua...)

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