Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Na tarde pois desse mesmo dia, em que Lucinda teve com sua senhora a conversação, de que demos conta no capitulo antecedente, a velha escrava foi baterá porta do aristocratico predio em que Conrado residia. Era já sol posto, e felizmente para Lucinda, achava-se Conrado sósinho em seu salão de visitas, donde ainda ha pouco se tinhão retirado alguns illustres personagens. Estava clle nessa occasião meio reclinado em um sophá, justamente embebido em ternas e dolorosas recordações dos amores de sua mocidade, da sua querida Adelaide, aos pés da qual com quanto prazer não teria deposto toda aquella riqueza e opulencia, de que gozava, si uma estrella funesta não tivesse vindo perturbar o seu destino, e entenebrecer para sempre os horizontes de sua vida Quando um criado veio annunciar-lhe que uma preta velha o vinha procurar e desejava como um grande favor fallar-lhe em particular. Conrado que era bomfazejo e esmolér, julgou que seria alguma desgraçada, como tantas outras, a quem costumava fazer generosas esmólas. Quando porém depois de a ter feito entrar no salão, reconheceo a velha escrava do major, sentio um choque inexplicavel.

Oh! és tu, Lucinda! exclamou com sorpreza e emoção. — Tu em Ininha casa! É uma grande novidade. Há mais de doze anos que não fallo com pessoa alguma de lua casa, á excepção do teu hello senhor, a quem ás vezes comprimento, quando o encontro na rua.

— É mesmo, nhô Conrado, é mesmo uma grande novidade, que hoje me traz á sua casa.

Devéras! deve ser mesmo assim, pois já vão para seis annos , que moro aqui em S. Paulo, e é a primeira vez que vens á minha casa.

—Podia e devia ter vindo ha mais tempo si ha mais tempo tivesse sabido da grande novidada, que hoje me traz aqui; mas só hontem é que vim a saber.

Enches—me de curiosidade, Lucinda ; senta-te ahi n'uma cadeira e vamos á tua novidade. És uma excellente rapariga, e cstou certo que por tua vontade só eu não teria soffrido o que soffri em casa de teu senhor. Mas antes dc (judo, (lize-me, como vac tua senhora? goza saude, c vive satisfeita?

— Ella vae indo bom, louvado seja Deos. Mccê ainda se lembra d'ella?

Como não, Lucinda? replicou Conrado algum tanto desconfiado da pergunta; — lembro-me sempre della e com muita saudade, mas com amor não; bem vés que isso hoje é imnossivel.

Mecé não me entende ; eu queria saber si não ficou querendo mal a ella pelo que aconteceo.

— Por ella ter-se casado?

— Senhor, sim.

— A dizer-te a verdade, Lucinda, a principio fiquei com bastantc odio (lella, porque não sabia das tramoias, que cá se armárão dando-me por morto. Mas dcpois que soube de tudo, perdoei-lhe do fundo d'alma, e só fiquei corn urn grande pesar, que ha de durar sempre em meu coraçã(E e um grande odio e rancor, que tambem nunca se ha de extinguir, contra teu senhor, que foi o unico causador de toda nossa desgraça.

— Mecê tem toda a razão, nhÔ Conrado; meu sinhô velho é homem que não tem coracão. Como mecês dois se querião bem desde creança, ah ! meu Deos! nunca vi um amor assim. Si ao menos sinhá Adelaide lhe tivesse dado uma filhinha. como mecé havia de querer bem a ella ! . ..

Que lembrança é essa, Lucinda lhou Conrado atonito e estremecendo ao ouvir taes palavras. — Que queres dizer com isso Q mas bem ves que isso era impossivel.

— Mas faça de conta, — insistio a preta com certo sorriso, que fez scismar a Conrado ; si assim acontecesse... si um filho ou uma filha...

— Oh ! si assim fosse, seria para mim uma grande consolação, a unica talvez, que poderia mitigar a dór profunda, que sempre me acompanhará por ter perdido Adelaide. Tu tens razão, eu sou como o viuvo que perdeo a esposa idolatrada ainda na flor dos annos, sem que de sua união ficasse um fructo, em que empregasse os extremos de seu coração. Olha, Lucinda, — continuou elle abrindo um cofreSinho e tirando delle um papel, que embrulhava um pequeno ramalhete de flores mur chas, que estavão quasi pulverísadas. — Ves estas flores murchas? ja nem se sabe o que são. Foi ella, que m'as deo no jardim da chacara um dia, em que declarou-me francamente o seu amor. No dia em que eu soube do casamento de Adelaide, quiz deitar fóra estas flóres; mas não tive animo, parecia que o meu coração adivinhava que ella era innocente. É tudo que resta de nosso antigo amor; são estas flóres murchas e poidas, fiel emblema de minhas illusões perdidas, de minhas esperancas esmagadas pelas mãos do destino. Si eu conservo com tanto amor e tao religioso cuidado estas reliquias mortas de nossa affeiçào. de que extremos, de que adorações nao rodearia o fructo vivo e animado de nosso amor! . .. Mas Deus assim nao permittio; nem isso era possivel...

Conrado interrompeo-se; a ernoção, que se apoderava de sue alma com aquellas recordaçõeg, provocavão-lhe as lagrimas. Pousou a fronte sobre a almofada do sophá, e escondeo o rosto entre as mãos procurando dominar sua perturbação. Lucinda o contemplava com ay satisfeito e enternecido, e nao quiz perturbal-o em sua passageira scisma; as cousas corpiño do modo o mais propicio papa o intento, que alli a trouxera.

Mas dize-me, Lncinda, — disse bruscamente Conrado, levantando a cabeça da almofada, — a que proposito te veio essa lembrança de um filho meu e de Adelaide, de uma cousa impossivel ?

Impóssivel Ah! meu branco, perdão, eu sei de tudo.

— De que, Lucinda? — exclamou o moço impacientando-se.

— Não se zangue com sua preta, nhÔ Conrado, disse Lucinda abafando a voz e com ar supplicante. — Eu sei de tudo o que mecê sabe, e de mais alguma cousa, que mecê ainda não sabe.

— Matas-me a paciencia!... falla de uma vez, Lucinda.

— Pois bem, eu vou fallar bem claro. Sinhá Adelaide teve uma filha, que nasceo poucos mezes depois que mecê desappareceo de S. Paulo.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1314151617...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →