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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Ligeiramente enrubesceu Inocência e descansou a cabeça no travesseiro.

—Por que amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço.

—Por nada, respondeu ela com acanhamento.

— Sente dor de cabeça?

—Nhor-não.

—Tire-o, pois: convém não chamar o sangue; solte pelo contrário, os cabelos, Inocência obedeceu e descobriu uma espessa cabeleira, negra como o âmago da cabiúna e que em liberdade devia cair ate abaixo da cintura. Estava enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do cocoruto

—É preciso, continuou Cirino, ter de dia o quarto arejado e por a cama na linha do nascente ao poente.

—Amanhã de manhãzinha hei de virá-la, disse o mineiro.

—Bom, por hoje então, ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem tudo, e que a dona sue bem. A meia-noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a mezinha.

Sossegue o seu espirito e reze duas Ave-Marias para que a quina faça logo efeito.

—Nhor-sim, balbuciou a enferma.

—Não lhe dói a luz nos olhos? perguntou Cirino, achegando-lhe um momento a vela ao rosto.

—Pouco... —um nadinha.

—Isso é bom sinal. Creio que não há de ser nada.

E levantando-se, despediu-se:

—Ate logo, sinhá-moça.

Depois do que, convidou Pereira a sair.

Este acenou para alguém que estava num canto do quarto e na sombra.

—Ó Tico, disse ele, venha cá...

Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado de rugas, como se já fora entrado em anos; mas os olhinhos vivos e a negrejante guedelha mostravam idade pouco adiantada. Suas perninhas um tanto arqueadas terminavam em pés largos e chutos que, sem grave desarranjo na conformação, poderiam pertencer a qualquer palmípede.

Trajava comprida blusa pardo sobre calças que, por haverem pertencido a quem quer que fosse muito mais alto, formavam embaixo volumosa rodilha, apesar de estarem dobradas. A cabeça, trazia um chapéu de palha de carandá sem copa, de maneira que a melena lhe aparecia toda arrepiada e erguida em torcidas e emaranhadas grenhas.

—Oh! exclamou Cirino ao ver entrar no círculo de luz tão estranha figura, isto deveras é um tico de gente.

—Não anarquize o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Ele é pequeno... mas bom. Não é, meu nanico?

O homúnculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos e agudos, ao passo que deitava para Cirino olhar inquisidor e altivo.

—0 Senhor vê, doutor, continuou Pereira, esta criaturinha de Cristo ouve perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo compreende. Não pode falar... isto é, sempre pode dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quase a estourar de raiva e de canseira. Quando se mete a querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus Recados, onde aparece uma voz aqui, outra acolá, mais cristãzinhas no meio da barafunda.

—É que não lhe cortaram a língua, observou Cirino.

—Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito e não pode ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é verdade, Tico?

O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cirino.

—Mas é filho aqui da casa? perguntou este.

—Nhor-não; tem mãe à beira do Rio Sucuriú, daqui a quarenta léguas, e envereda de lá para ca num instante, vindo a pousar pelas casas, que todas recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a ninguém. Aqui fica duas, três e mais semanas e depois dispara como um mateiro para a casa da mãe. E uma espécie de cachorro de Nocência. Não é, Tico?

Fez o mudo sinal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.

Pereira, depois de todas aquelas explicações que o anão parecia ouvir com satisfação, disse, voltando-se para este, ou melhor abaixando-se em cima da sua cabeça:

—Agora, meu filho, vai ao curral grande e apanha para mim uma mãozada de folhas de laranjeira da terra... daquele pé grande que encosta na tronqueira.

Mostrou o homúnculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.

Ia Cirino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:

—Ó doutor, Nocência quer beber um pouco de água. . . Fará mal?

—Aqui não há limões-doces? indagou o moço.

— E um nunca acabar... e dos melhores.

—Pois então faça sua filha chupar uns gomos.

Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e dispostos os cobertores ao redor do corpo da menina, acompanhou Cirino que, parado à porta de saída, estava mirando as primeiras estrelas da noite.

—Vosmecê achou doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto trêmula, algum perigo no que tem aquele anjinho

(continua...)

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