Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
D. Violante está com a cabeça mettida em uma touca e o nariz atravessado por uns oculos : sentada em uma cadeirinha baixa, depuzera sobre a mesa que tem perto de si, um livro, a historia do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, que pela duode-cima vez estava lendo, e conversava com sua sobrinha, a jovem D.
Clemência, que viera passar o dia com ella.
Dezoito annos, belleza, graça, espirito, faceirice, sensibilidade, inexperiencia, credulidade e esperança, eis o que é D. Clemência. Não póde, apezar de tudo ser uma perfeição, e ha de ter por força seus defeitosinhos ; sobre-sáe porém. n'ella um unico defeitosão ; não é um dedo aleijado, nem olho vesgo, nem nariz torto, mas é peior do que tudo isso junto, é uma noiva sem dote ; o pai ganha bastante para viver e tratar com decencia sua família ; mas por isso mesmo a sua carteira anda sempre tão magra como os cofres da câmara municipal da corte. Já se vê que é uma carteira ordinariamente affectada de phtisica.
A theoria das compensações estava alli assentada sobre o elegante penteado da moça e entre as pregas amarrotadas da touca da velha.
Achava-se travada a conversação : D. Violante não era impertinente nem severa, D. Clementia não era timida nem hypocrita fallavão ambas portanto com expensão e liberdade.
A scena passava-se no dia 20 de Setembro, dous dias depois do baile da inauguração do Cassino, e a romanesca joven descrevia com enthusiasmo aquella festa esplendida e brilhante.
— Ah Clemência! disse emfim a velha; também por uma noite de baile fallas com um fogo que me parece de mais.
— É porque no baile está o maior e o mais bello triumpho da mulher ; é porque no baile a mulher é rainha e conquistadora, avassalla corações,faz dos homens escravos,e esquece horas que passão voando, no meio de hymnos e de suspiros, e de apaixonadas confidencias, que enchem a alma de esperanças e o futuro de flores... em uma palavra, é porque a mulher tem todas a sua felicidade dependente só de amor, e porque em um baile tudo e a cada instante lhe está repetindo — amor ! amor !...
— Que dizes tu ?... amor ?....
— Sim, minha tia, e um amor puro e santo, o amor que realisa os seus queridos sonhos, e assegura o seu futuro, o amor que aperta os laços mimosos do hymenêo.
— Estás muito enganada, minha sobrinha; esse amor de que fallas, era, sim, o amor do meu tempo ; mas desde muito que fugiu espantado da cidade do Rio de Janeiro... hoje em dia ninguém mais sabe amar... ninguém mais ama n'esta cidade interesseira e prosaica...
— Misericordia, minha tia !
— A civilisáção e o progresso matarão o amor!...
— E um paradoxo...
— Vou demonstrar o que digo.
Uma velha a raciocinar sobre o amor parece talvez uma alma do outro mundo a querer tomar parte nos gozos dos vivos ; não importa : devemos ouvil-a.
D. Violante pretende provar que ninguém mais ama em uma cidade onde ha moças que contão só de primeiros amores, ás vezes, uma duzia, e homens que têm cada dia da semana destinado para uma namorada, como os pedintes de irmandades, que têm uma opa differente para cada dia da semana.
Já se vê que é injustiça e embirração de velha ; mas deixemol-a fallar.
— Minha sobrinha, escuta : o amor é uma espécie de systema representativo que sern opposição degenera, e torna-se em agua morna ; o amor vive de desejos que por muito tempo flammejão debalde, de esperanças que morrem e revivem, de saudades que o alimen-tão na ausencia ; o amor brilha na adversidade redobra de força diante dos obstaculos, e é todo magia e encanto quando se occulta na sombra e no mysterio. O amor foge da luz sem ser coruja, adora o segredo das negociações pendentes sem ser ministro dos negocios estrangeiros, maldiz da publicidade sem ser chefe de policia, e salta por cima das regras ordinarias, do direito e dos leis sem ser poder executivo.
— E que mais, minha tia ?
— No outro tempo, no meu bom tempo, o amor tinha por seu ninho predilecto a cidade do Rio de Janeiro : e porque?... eu te digo : porque o amante para ver a sua amada esperava um momento propicio roubado á vigilância dos pais e tutores desconfiados ; e para fazer-lhe chegar as mãos um bilhetinho amoroso, vencia mais trabalhos que Hercules. Então havia a distancia, a ausencia, e portanto a saudade : havia um espaço immenso, um muro enorme que impedia que os amantes se fallassem, e amor industrioso dava voz e eloquencia ás flores, e o botão de rosa e o cravo branco, a saudade e a sempre-viva, a flor de laranjeira e a perpetua, dizião mais e melhor do que um discurso de copo d'agua na camara dos deputados. Havia emíim opposição e receios, esperança e temores, sombra e mysterio, e portanto havia amor.
— E agora, minha tia ?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.